31.1.17

ÍSIS DIAS DE OLIVEIRA, comunista e guerrilheira, presente, agora e sempre!

Deusa do amor e da magia, da maternidade e da fertilidade, Ísis foi a primogênita do deus da Terra, Geb, e da deusa do Firmamento, Nut, segundo acreditavam os antigos egípcios. É a deusa da simplicidade, protetora dos mortos e das crianças de quem "todos os começos" surgiram, a senhora dos eventos mágicos e da natureza.

Religiões à parte, Ísis foi o nome que seu Edmundo e dona Felícia escolheram para sua única filha mulher, caçula da família de três irmãos, nascida em 29 de agosto de 1941. Comunista e guerrilheira, pianista e atiradora emérita, Ísis Dias de Oliveira foi assassinada sob tortura em 31 de janeiro de 1972. Seu corpo nunca foi encontrado.

Retrato de Ísis Dias de Oliveira - Arquivo Pessoal de José Luiz Del Roio


Quarenta e cinco anos depois de seu desaparecimento, celebramos sua memória, sua luta e sua vida com a CORRIDA POR ÍSIS, que hoje passou por locais importantes da trajetória da jovem paulistana, filha de um casal de classe média, uma das heroínas brasileiras tombadas na luta contra a ditadura militar.

Mergulho na memória e na história, nossa corrida começou nos altos do Sumaré e foi despencando morro abaixo, descendo do espigão da Paulista em direção a Higienópolis, onde faríamos nossa primeira parada em frente ao primeiro marco da vida política de Ísis: o histórico prédio da USP (Universidade de São Paulo) na rua Maria Antônia.

Formada no clássico no tradicional colégio Santa Marcelina, Ísis chegou à faculdade dona de ampla cultura. Era pianista, pintava, também se dedicava à escultura e ao estudo de idiomas –inglês, francês e espanhol.

Ingressou no curso de ciências sociais da USP em 1965 e descobriu o movimento estudantil. Acabou entrando no Partido Comunista Brasileiro pelas mãos de José Luiz Del Roio.

Sete meses mais novo que Isis, Del Roio participava das lutas estudantis havia quase dez anos. Atuara na reconstrução da União Paulista dos Estudantes Secundaristas na segunda metade da década de 1950. No início dos anos 1960, já como militante do PCB, chegou a atuar na área do sindicalismo rural.

Depois do golpe militar, sofre um processo, tem contra si um Inquérito Policial Militar em que é acusado de ter participado do comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, apoiando e aplaudindo o discurso reformista de João Goulart.

Apesar de fichado como comunista, Del Roio volta à ativa, atuando na direção do movimento estudantil. É quando conhece Ísis.

Corrida por Ísis - parada em frente ao prédio  da
USP na rua Maria Antônia (fotos Alexandre Maciel)
“Tinha uma companheira do Partido, a Sônia, Sônia Carmo, que era de base da Ciências Sociais. E deve ter sido no final de 1964, ou início de 1965, não me recordo, que ela me apresentou a Ísis, uma amiga sua. Uma pessoa segura, que poderia entrar na sub-base do Partido Comunista Brasileiro. Foi assim que eu a conheci. Eu conheci, rigorosamente, na Maria Antônia, mesmo. Nas minhas passagens por lá. Isis foi morar no Crusp (Conjunto residencial da USP, alojamento para estudantes na Cidade Universitária), que tinha sido recém reformado, custava pouco, custava quase nada. E nós ficamos juntos quase desde o início.”

Em entrevista dias antes da CORRIDA POR ÍSIS, Del Roio lembra aqueles primeiros momentos de namoro, de parceria, de vida em comum.

“Ela era belíssima, mas isso não queria dizer nada em si. Era muito simpática. Muito dedicada. Em tudo. Mais ou menos. Para ela, foi até bastante injusto ficar comigo.  Ela tinha uma grande capacidade de comunicação de massa, ela já teria que ser um quadro, tinha muito contato com o meio intelectual, era amiga de Mário Schenberg [1914-1990, físico, crítico de arte, político], ela era também uma artista plástica. Então, ela deveria ter sido um quadro de massa, uma liderança de massa. Não foi porque ficou restringida pela minha causa. Porque eu, com muitos contato clandestinos, não podia estar com uma pessoa que fosse muito visada.”

Cm isso, os dois, Isis e Del Roio, acabaram enfronhados nos trabalhos partidários. Chegou a trabalhar diretamente com Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira –com eles, participaria da criação da Ação Libertadora Nacional, a ALN.

“Ela fazia os pontos [locais de encontros]. Marcava coisas. Se organizava e tinha alguns contatos também com os Comitês de Zona, operários, da periferia. Isso a fez se recolher. Eram contatos bastantes sérios, com as gráficas, coisa muito importante na comunicação à época. Era a coisa mais secreta.”

Juntos na militância, os dois também atuavam juntos na atividade de fachada, o cursinho pré-vestibular Pré-USP, ali mesmo na rua Maria Antônia. Por ali passavam figuras importantes do partido, ali eram feitas discussões políticas que ajudaram a definir o rumo da luta democrática de resistência ao golpe militar.

Não só ali como também num outro ponto de encontro de Ísis e Dele Roio: o apartamento no bairro de Santa Cecília onde foram morar como jovem casal devidamente e oficialmente casado.

A cerimônia ocorreu no fórum da Lapa, bairro onde a família morava – a casa dos pais de Ísis era na rua Albion, pertinho da praça que hoje leva o nome da guerrilheira.

Casamento de Ísis e Del Roio em 8 de abril de 1967


“Foi um casamento normal, pequeno burguês, só que a canalha, meus amigos do PCB, do movimento estudantil, descobriram, foram lá em massa, criando uma saia justa. Não era para fazer isso, não, porque nós atuávamos na clandestinidade. Ainda era 1967, abril 1967”.

A turma bebeu um pouco demais, passaram a cantar músicas da Revolução Espanhola... “Nem todos sabiam sabiam que que eu estava ligado à direção do Partido, ligado a um esquema clandestino pesado, e ela também. Não sabiam disso. Mas foi terrível. Foi uma saia justa”, reclama Del Roio, com ares mais divertidos do que repressores.

O casal vivia em um pequeno apartamento no edifício Cotovia, na rua das Palmeiras –segundo ponto de parada de nossa CORRIDA POR ÍSIS.

“Era quarto, sala, cozinha, banheiro. Era um apartamentinho de nada. Com móveis até bonitinhos, porque acho que foram comprados pelo meu pai, da Associação dos Ferroviários de Bragança Paulista. Eles tinham um setor de marcenaria, cada sindicato tinha uma sessão que fazia móveis. Muito bons”, lembra Del Roio.

Corrida por Ísis -- Ana Claudia, dos Corredores Patriotas
 Contra o Golpe, e Ana Paula, do GT da Vala de Perus
O apartamento era local de encontros políticos assim como os cursinhos em que os dois trabalhavam. Ambos estão ligados aos dirigentes comunistas que, ainda naquele ano de 1967, seguem Marighella para construir uma nova forma de resistência à ditadura, com ações armadas.

Biógrafo de Marighella, o jornalista Mário Magalhães destaca a importância de Del Roio e Ísis para a construção da guerrilha. Diz que o casal de militantes da ALN “animava um cursinho pré-vestibular que foi o segundo pé do grupo armado de Marighella”.

No livro “Marighella, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, Magalhães cita Ísis em ainda outra passagem:

“Um dos alunos [do cursinho Pré-USP] que se incorporaram à ALN foi Maurice Politi, que Marquito [Marcos Antonio Braz de Carvalho, comandante do primeiro grupo de fogo da ALN em São Paulo] levou com a linda Ísis e outros quatro vestibulandos a uma marcha de mais de dez quilômetros e exercícios com um revólver velho. Só a pontaria dela mereceu aplausos, e os demais foram deslocados para o aparelho logístico.”



“Desde o início”, diz Del Roio, “Ísis participou de ações de agitação e propaganda bastante pesadas”.

Não chegou, naquela época, a ter enfrentamento com a repressão.

Um exemplo foi a série de manifestações realizadas pela ALN em solidariedade ao povo vietnamita e comemoração da Ofensiva do Tet, em janeiro de 1968, momento decisivo para a vitória sobre as forças norte-americanas.

“Nós, na organização, decidimos fazer manifestações muito demonstrativas, pequenas bombas, de pólvora, não fazia mal para ninguém, mas sujava que era uma beleza. Para pôr em locais que pudessem simbolizar o imperialismo americano, como o Consulado. Era uma ação só demonstrativa, porque a gente achava que era necessário dar solidariedade ao Vietnam, não só ao Vietnam, mas ao próprio movimento estudantil, juvenil, que estava nascendo nos Estados Unidos contra a guerra no Vietnam. Era isso. Fizemos uma série de coisas assim, também distribuição de material em fábricas, essas coisas...”


Del Roio na homenagem realizada na manhã de hoje - foto Genira Chagas
A situação no Brasil foi ficando cada vez pior, a repressão cada vez mais dura e violenta. Mesmo quem tinha atuação protegida por fachada legal, como Del Roi e Ísis, precisou cair na clandestinidade total. Não dava mais para sobreviver no país.

“Ela foi para Cuba. Alguns meses depois eu fui também.”

Os dois participaram de treinamento com os cubanos, mas já não eram mais um casal. “A situação estava difícil. As quedas aqui estavam sucessivas, havia o problema de voltar ou não voltar. Quem volta, para onde vai? Nós chegamos à conclusão de que não existia essa possibilidade de ficarmos juntos. Será o que Deus quiser. A última vez que eu a vejo foi em 1970, em Havana.”

Del Roio vai para o Peru, onde sopravam ares progressistas com o governo de Juan Velasco Alvarado. Ísis volta para o Brasil e passa a atuar no Rio de Janeiro.

“Ela é deslocada para atuar fora da cidade dela, porque é mais fácil. É mais fácil porque não corre o risco de encontrar gente conhecida na rua. É mais difícil porque você conhece menos o território. Então é uma coisa bastante discutível. O que é melhor? Ela atua por um ano, um ano e meio, basicamente no Rio. Embora viaje bastante para São Paulo. Ela era um excelente quadro militar. Excelente atiradora. Muito corajosa. Muito decidida.”

O sequestro e o assassinato de Ísis até hoje não estão completamente esclarecidos. No documento final da Comissão Nacional da Verdade, registra-se o seguinte:

“Izis Dias de Oliveira desapareceu no dia 30 de janeiro de 1972. Com ela, também desapareceu Paulo Cesar Botelho Massa. Na época, viviam juntos em um “aparelho” da Ação Libertadora Nacional (ALN), na cidade do Rio de Janeiro.”

Os fatos relativos à sua prisão e sua morte nunca puderam ser apurados e totalmente esclarecidos; por muito tempo, não foi encontrado nenhum documento oficial sobre o caso.

Foto Eleonora de Lucena

Para Del Roio, Ísis foi assassinada no dia 31 de janeiro de 1972, conforme registro no texto oficial da Comissão nacional da Verdade que investigou mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar:

“Outra possibilidade para o desaparecimento de Izis pode ser levantada a partir da leitura do documento nº  4057/16/1975/ASP/SNI, de 11 de setembro de 1975, expedido pelo Serviço Nacional de Informações (SNI); [trata-se de] uma lista com nomes de militantes, cada qual 
associado a uma data e uma sigla. É possível inferir que as datas grafadas referem-se à data da morte de cada um. Nesse documento aparece o nome de “Isis de Oliveira Del Rey”, referindo-se, provavelmente, ao nome de casada de Izis. Associada a ela aparece a data do dia 31 de janeiro de 1972 e “estado da Guanabara”. Segundo esse documento, imagina-se, Izis teria falecido no dia seguinte à prisão...”

A desinformação sobre o que havia acontecido com Ísis, as mentiras e os engodos covardes foram uma maneira de a ditadura militar seguir punindo a família da guerrilheira, torturando a mãe e o pai.

De amarelo, á esq., dona Felícia Dias de Oliveira, com Ísis e Del Roio - Arquivo Pessoal

“Ditadura enganou mãe que procurava filha desaparecida, diz advogada” é o título de texto publicado em blog do jornal “O Estado de S. Paulo” pelo repórter Roldão Arruda.

Ele cita depoimento de Eny Raimundo Moreira, advogada da família de Ísis, registrado no livro “Advocacia em Tempos Difíceis”:

“Em sua entrevista, a advogada lembra que os pais de Ísis dedicaram o resto de suas vidas a procurar informações sobre o paradeiro dela. Seu Edmundo teve dois infartos seguidos. Dona Felícia largou tudo para se dedicar exclusivamente às buscas. Passava a semana no Rio, correndo atrás de qualquer fiapo de informação que obtinha, só retornando nos finais de semana à sua casa, em São Paulo. Escrevia cartas endereçadas a políticos e autoridades do regime, visitava todos os lugares onde sabia existirem presos políticos, além de hospitais e cemitérios. Foi a treze cemitérios do Estado do Rio verificar listas de pessoas enterradas.”

Em 2004, dona Felícia relatou à repórter Natália Suzuki seu último encontro com Ísis. Foi no Rio de Janeiro, no dia em que a jovem guerrilheira completou 30 anos.

“Era um domingo e tudo estava fechado, Pegamos um circular e fomos num lugar longe, lá em Copacabana. Entramos numa lanchonete que encontramos aberta. Apesar da minha crise de vesícula, eu ainda comi uma tortinha de morango com creme de chantilly naquele dia. Não devia…”

Chegada da Corrida Por Ísis: Alexandre Maciel, que nos acompanhou de bicicleta, eu, Ana Paula e Ana Claudia -- foto Genira Chagas

No início de 1972, dona Felícia novamente viajou para o Rio. Sentada dos fundos da igreja da Candelária, esperou pela filha –era a terceira vez em que a moça não comparecia a um encontro marcado. A definitiva.

Costureira nascida em Miranda, em Mato Grosso do Sul, ela buscou durante anos a verdade sobre o caso. Em 1974, chegou a ir a Londres para confirmar um boato de que Isis estava vivendo por lá.

Em 1999, dona Felícia (1917-2010) inaugurou no final da  rua Albion, na Lapa, a praça Ísis Dias de Oliveira, destino de nossa corrida de hoje, que teve pouco mais de doze quilômetros (com esse trecho, superei hoje a marca de 500 quilômetros percorridos desde o dia 14 de novembro; se nenhum imprevisto acontecer, vou conseguir completar o desafio de inteirar seiscentos quilômetros antes mesmo de meu aniversário de 60 anos, no dia 14 de fevereiro próximo).

Minúscula, a praça triangular tem um perímetro inferior a cinquenta metros. Conta, porém, com três enormes figueiras, cujas raízes se emaranham sobre a terra. Abandonada, é ponto de depósito de lixo e bugigangas –os companheiros que chegaram à praça hoje de manhã para esperar os corredores  tiveram de fazer uma limpeza geral da área para que ficasse mais visível o monumento em homenagem a Ísis.

É apenas uma pedra simples em que se destaca a frase “Quando eu não puder mais falar, vocês falarão por mim”, trecho de uma carta que ela escreveu para a mãe.

Laura Lucena e Del Roio, Lavínia (filha de Del Roio), Ana Claudia, Jacy, Ana Paula, Genira, eu e Alexandre - foto Eleonora de Lucena

Ali depositamos flores, e Del Roio falou um pouco sobre Ísis, como você pode ver no vídeo que registrou nossa homenagem.


A celebração foi para Ísis. Em nome dela, homenageamos todos os que combateram a ditadura militar e que, com seu sangue, ajudaram a construir a democracia no Brasil, hoje novamente ameaçada.

Que eles sirvam de inspiração para que continuemos todos a luta por uma nação livre, justa e soberana.

VAMO QUE VAMO!!!!


Percurso do dia 31 de janeiro de 2017
12,09 km percorridos em 2h08min04

Acumulado no projeto 600 aos 60
501,59 km percorridos em 101h03min44

Acumulado no projeto 60M 60A
278,39 km percorridos em 54h04min51

























25.1.17

Caminhando com os aposentados no aniversário de São Paulo

A reforma da Previdência que está no Congresso Nacional é um crime!!!
Simples assim, clara e direta é a palavra não de algum líder petista, cutista, petralha bolivariano ou criptocomunista militante contra o governo golpista do usurpador provisório.
Quem disse isso foi João Carlos Gonçalves, o Juruna, segundo vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e secretário-geral da Força Sindical, que muitos consideram força auxiliar do governo golpista porque alguns de seus integrantes de fato apoiaram a ação antipovo que culminou com a derrubada do governo eleito da presidenta Dilma Roussef.
Juruna deu essa declaração e outras tantas para mim, em entrevista que já-já você vai ver na íntegra. Ele foi um dos dirigentes sindicais presentes no GRANDE ATO DE PROTESTO contra a reforma da previdência, manifestação realizada na manhã deste dia 25 de janeiro e organizada pelo Sindicato Nacional dos Aposentados –também ligado à Força Sindical.
Eu estive lá nesta manhã ao final de mais uma de minhas caminhadas/corridas no percurso. A de hoje foi muito especial: não só passei pelo Minhocão, agora batizado de elevado presidente João Goulart, como também fiz vários trechos de corrida sem dor e com um ritmo muito gostoso.
Pela primeira vez desde o dia seis de novembro de 2016, consegui correr quinhentos metros sem parar; em alguns momentos, até perdi as contas e cheguei aos seiscentos metros. A gente vai se sentindo bem e quer seguir, mas preciso me controlar, não abusar, porque o corpo ainda está em recuperação, tratando de regenera o meu sofrido e dolorido fêmur esquerdo.
Não se brinca com fratura por estresse...
E não se brinca com a vida e a saúde do povo, advertiam os manifestantes no Ato de hoje, realizado na rua do Carmo, do ladinho mesmo da praça da Sé.
Em vez de seguir escrevendo e descrevendo a manifestação, melhor mostrar para você um vídeo com destaques do que vi hoje na manifestação, que reuniu milhares de pessoas. Havia pelos menos dois quarteirões apinhados de gente e outros dois quarteirões com bastante gente, mas com espaço para a gente passar.
Eu fiz uma transmissão ao vivo do evento, foram mais de trinta minutos de vídeo, com várias entrevistas –inclusive a palavra do já citado Juruna. Especialmente para você, porém, editei o vídeo, meio à moda Miguelão, mas com alguma eficiência –espero--, para deixar apenas as partes mais importantes.


Peço desculpas pela má qualidade da edição, que se deve a vários fatores. Eu estou ainda aprendendo, por tentativa e erro, a mexer com o programa de edição, que tem apenas recursos elementares e bem toscos, e o meu equipamento é velho e com pouca capacidade de processamento para as exigências de edição de vídeo. Se você ou sua empresa quiserem apoiar meu projeto, podem me dar de presente um notebook ou computador de mesa com alta capacidade de processamento e placa gráfica –garanto que os vídeos vão melhorar.
Bom, como disse, a visita e a participação no ato dos aposentados foi a conclusão de minha jornada de hoje. Antes de ir ao encontro deles, passei pela praça da Sé, onde vários grupos dos chamados movimentos populares –basicamente, entidades que lutam pelo direito à moradia—também realizavam uma mobilização, que chamaram de cartão de visita para o prefeito João Dória.
Eles se concentraram em frente às escadarias da catedral e, quando cheguei, eram um número ainda relativamente pequeno, algumas centenas de pessoas, mas a manifestação estava ainda no período do “esquenta”.
Também realizei ali uma transmissão ao vídeo, mostrando via internet um pouco do que estava acontecendo na cidade neste aniversário de São Paulo, que completa 463 anos de fundação, iniciando o ano com aquele que tem tudo para se tornar o pior prefeito da história dessa aguerrida e sofrida metrópole.
Foi um vídeo curto, em que tive a oportunidade de conversar rapidamente com uma das lideranças do movimento, Raimundo Bonfim, que também soltou o verbo.
O vídeo está no ar, direto, sem edição. Espero que você goste.


VAMO QUE VAMO!!!!


Percurso do dia 25 de janeiro de 2017
14 km percorridos em 2h52min51

Acumulado no projeto 600 aos 60
444,03 km percorridos em 89h49min19

Acumulado no projeto 60M60A
220,82 km percorridos em 42h50min26




23.1.17

Quatrocentos quilômetros já se foram; chances do velhinho começam a melhorar

Você que vem me acompanhando por este percurso internético sabe muito bem que não pretendo nem sonho em quebrar recordes ou fazer enormes desafios de boa forma, resistência ou sobrevivência: quero apenas demonstrar que é possível resistir à preguiça e à passagem do tempo mesmo não sendo atleta, mesmo tendo diversos problemas físicos, mesmo sofrendo com as dores do mundo.
Chegar à idade em que somos cadastrados oficialmente como velhos, idosos ou o que quer que seja não significa abandonar a vida nem a busca da felicidade, não significa deixar de ser ativo e vibrante.
Esse é o sentido de meu projeto de tentar percorrer, ao longo deste ano em que completo sessenta anos, distância equivalente à de sessenta maratonas –2.532 quilômetros.
Antes de chegar, tenho uma espécie de subprojeto, metavolante talvez: inteirar seiscentos quilômetros até o dia de meu aniversário, 14 de fevereiro.
Está sendo difícil porque uma lesão me impede de correr o tanto que eu desejaria ou deveria. Então caminho e, aos poucos, vou engolindo quilômetros.
No último fim de semana, ultrapassei a marca dos quatrocentos quilômetros. Falta um terço da jornada, e os indícios que tenho são muito positivos. Se não for atingido por um raio, doença ou acidente de algum tipo, minha previsão é superar os seiscentos quilômetros até uns dias antes do estabelecido por mim mesmo.
Falei sobre isso em uma transmissão ao vivo que fiz no último sábado, depois de um treino muito gostoso. Apesar de modesto, o vídeo teve muitas visualizações, comentários e apoios, pelos quais agradeço a você e a todos que me acompanham e incentivam.
Se você não chegou a ver a transmissão, não tem problema. O vídeo está aqui, basta clicar nele.


Estou tão otimista que até já anuncio a realização de treinos especiais, aproveitando a oportunidade para convidar você para participar dessas jornadas.
No próximo dia 31 de janeiro, que é uma terça-feira, farei uma corrida/caminhada em homenagem a ISIS DIAS DE OLIVEIRA, comunista e guerrilheira. Naquela data se completam 45 anos do desaparecimento de Ísis, que foi presa/sequestrada no final do dia 30 de janeiro de 1972.
Vou percorrer locais que lembram a trajetória política de Ísis, que participou do processo de fundação da ALN (Ação Libertadora Nacional), ao lado de Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira.
A chegada será na praça Ísis Dias de Oliveira, na Lapa, onde vou encontrar e conversar com José Luiz Del Roio, que foi casado com Ísis e também militou na ALN.
Você está oficialmente convidado para a jornada, que terá cerca de doze quilômetros e será percorrida no meu ritmozinho de convalescente: muita caminhada e alguns blocos alternando trechos de corrida e de caminhada.
Outro evento especial do projeto está previsto para o dia sete de fevereiro, também uma terça-feira, quando vou caminhar com o presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados/CUT, Epitácio Luiz Epaminondas, o Luizão.
Mais perto daquela data, trarei informações mais detalhadas para que você possa caminhar com a gente naquele dia e acompanhar a conversa com Luizão, que é um ótimo papo e experiente dirigente sindical.
Bom, para completar esta página de otimismo, quero dizer que já vejo a chegada desta primeira etapa de minha jornada, estou ganhando confiança de que vai ser possível inteirar os seiscentos quilômetros no prazo previsto.
E gostaria muito de ter sua participação nessa celebração, a festa da chegada dos seiscentos quilômetros, que também será o festejo de minha entrada oficial na idade em que somos chamados de idosos.
Nos meus trajetos de cada dia, sonha com essa chegada, planejo, organizo. Com calma e caldo de galinha, vou chegando perto. Quando crescerem as chances de vitória, pode esperar que vou compartilhar com você tudo direitim, tintim por tintim.
Venha completar comigo os seiscentos quilômetros aos sessenta anos!!!
VAMO QUE VAMO!!!


Percurso do dia 23 de janeiro de 2017
13 km percorridos em 2h18min26

Acumulado no projeto 600 aos 60

418 km percorridos em 84h34min47

Acumulado no projeto 60 M 60 A


194,79 km percorridos 37h35min54

17.1.17

MANOEL FIEL FILHO, presente! Agora! E sempre!

Se vivo fosse, o operário metalúrgico Manoel Fiel Filho andaria hoje ainda sob o banho de alegria dos festejos de seus noventa anos, que teria completado no último dia sete, comemorando com a mulher, as filhas, os netos e bisnetos, provavelmente em uma casa modesta na zona leste de São Paulo, onde morou grande parte de sua vida.
Manoel está morto. Foi assassinado, depois de mais de doze horas de tortura, na manhã do dia 17 de janeiro de 1976, em uma cela do famigerado DOI-Codi, um dos centros das barbaridades cometidas pela ditadura militar contra homens e mulheres patriotas, combatentes da pátria, da democracia e da vida.
No ano passado, quando se completaram quarenta anos do crime, realizei o projeto CORRIDA POR MANOEL, fazendo quarenta dias de corrida por percursos que lembravam a vida e a morte do operário assim como outros momentos marcantes da luta contra a ditadura militar.
Hoje voltei a fazer parte daquele percurso, rememorando a trajetória desse homem que, talvez pela vida simples que levava, talvez por uma suposta desimportância de operário, é pouco lembrado.
O que eu tenho a dizer é que cada uma das vítimas da ditadura, cada um dos presos, mortos e desaparecidos é um mártir do povo brasileiro, é um herói da luta pela democracia. Cada um ajudou, com seu sangue, a pavimentar o caminho dos brasileiros para a construção de uma país mais livre e menos desigual –conquistas hoje ameaçadas pelos golpistas que tomaram de assalto o poder e tentam destruir a nação e fazer dos brasileiros escravos.
Tendo esses homens e mulheres como exemplo e inspiração, fiz da minha caminhada de hoje um mergulho na memória, uma homenagem a Manoel.
Segui, primeiro, até o cenário de seu martírio e assassinato. Fui até o prédio na rua Tutoia onde funcionava, em 1976, o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), órgão ligado ao Exército, sucedâneo da tenebrosa Operação Bandeirantes.
Hoje ali funciona uma delegacia de polícia, que mostrei em transmissão ao vivo que realizei no início da manhã e reproduzo a seguir.


O vídeo não ficou muito bom, tanto por limitações técnicas do próprio sistema e do aparelho usado para a transmissão, quanto por problemas de Bios (bichinho ignorante operando o sistema).
Em vários pontos o som foge ou fica muito baixo. Isso aconteceu marcadamente em um momento em que lembro outro mártir aniversariante de janeiro, o herói do povo brasileiro Stuart Edgard Angel Jones, nascido em Salvador em onze de janeiro de 1945.


Dirigente do MR-8, Stuart foi assassinado em público, no pátio do quartel da Aeronáutica em que estava detido, no Rio de Janeiro. A ferocidade dos torturadores, que tentavam arrancar dele o paradeiro do capitão Carlos Lamarca, foi em vão.
O martírio de Angel foi relatado em carta do ex-preso político Alex Polari de Alverga à mãe de Stuart, a estilista Zuzu Angel:
Em um momento retiraram o capuz e pude vê-lo sendo espancado depois de descido do pau-de-arara. Antes, à tarde, ouvi durante muito tempo um alvoroço no pátio do CISA. Havia barulho de carros sendo ligados, acelerações, gritos, e uma tosse constante de engasgo e que pude notar que se sucedia sempre às acelerações. Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos”.
No vídeo, eu me refiro a algumas dessas informações e cometi erros de datas –há discrepância entre diversas fontes. Neste texto, usei os dados registrados pela Comissão Nacional da Verdade.
A lembranças desses casos terríveis pesava na minha caminhada. Decidi, então, seguir para o caminho da vida, da luta, sempre pensando na trajetória de Manoel Fiel Filho.
Fui até a sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, onde Manoel militou no início dos anos 1970. Chegou a ser delegado sindical, representante da companheirada que trabalhava com ele na metalúrgica Metal Arte, na zona leste de São Paulo, como lembram os dirigentes sindicais que entrevistei neste vídeo:


De novo, aconteceram alguns problemas técnicos na transmissão, mas me parece que agora o vídeo ficou melhor.
Lembro que, em homenagem a Manoel Fiel Filho, o dia 17 de janeiro, data de sua morte, ficou registrado como o Dia do Delegado Sindical.
VAMO QUE VAMO!!!

PS.: Na manhã de hoje, enquanto rememorava em meu percurso as barbaridades cometidas durante a ditadura militar, um atentado à democracia, à liberdade de expressão e aos direitos humanos mais elementares era cometido em São Paulo. 
A Polícia Militar atacou famílias de sem teto que ocupavam um terreno na zona leste da cidade.


Guilherme Boulos (foto Martha Raque, para os Jornalistas Livres), dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, foi preso por “desobediência”.
Sobre o caso, reproduzo a seguir texto publicado na página dos Jornalistas Livres:
Boulos acompanhava a ação da Polícia Militar, que chegou com a tropa de choque, na desocupação de uma área que abriga cerca de 700 famílias na Zona Leste de São Paulo.
“Diante da força policial mobilizada, Boulos estava lá para evitar mais um dos constantes massacres às ocupações orquestradas pelo governo de Geraldo Alckmin. Foi detido por  incitação à violência e obstrução da justiça quando, num diálogo pacífico, tentava negociar a transferência das famílias para outro local. Ele também pedia aos oficiais da Justiça prazo – de uma hora e meia – para a desocupação. Há um pedido do Ministério Público para reconsideração do caso, mas os oficiais da Justiça e os policiais não quiseram saber.
“O mandado de despejo foi entregue à comunidade que já ocupa a área há dois anos. Em vez de enfrentar a situação, o poder público entregou o caso para a polícia.
“E, em vez de fazer cadastro das famílias em programas de moradia, o governo foi ao local para destruir as casas de quem não tem onde morar.
Essa é mais ação do Estado para criminalizar os movimentos sociais.”


Percurso do dia 17 de janeiro de 2107
11,21 km percorridos em 2h24min48
Acumulado no projeto 600 aos 60
363,78 km percorridos em 74h10min25
Acumulado no projeto 60 M 60 A

140,57 km percorridos em 27h11min32

14.1.17

Para mim, faltam quilômetros; para os velhos, faltam empregos

Falta um mês para o dia de meu aniversário, o dia em que completarei sessenta anos e entrarei oficialmente, de papel passado, registro no Estatuto Nacional do Idoso e avalizado pela Organização Mundial da Saúde, no maravilhoso terreno da velhice, na segunda metade de minha vida.
Encaro a chegada com bonomia, certo temor e também um tanto de desalento: vejo, aos poucos, meu projeto de corrida se esboroar pelo chão, se esfarinhar na falta de quilometragem...
Não treinei hoje: fui fazer uma endoscopia para examinar uma velha úlcera e sinais de uma irritante, dolorida e gigantesca gastrite. O treino de ontem foi abortado pouco depois da metade, devido a dores intensas no estômago, uma queimação brutal que me fazia dobrar o tronco e provocava até dores lombares, sem falar de uma terrível frustração e um enorme desalento.
Pensei em continuar de qualquer jeito, mas a experiência e o bom senso de Eleonora, minha parceira de vida, falaram mais alto. É melhor parar enquanto ainda resiste, pois assim o corpo estará mais forte para se recuperar; se deixar o corpo se esmilinguir, a recuperação também fica mais demorada.
São coisas que os corpos mais velhos, como o meu, sentem: ainda que sejamos jovens de espírito, a carne já viveu o tempo todo que estamos cá na terra, e todos os processos vitais estão mais lentos. Há que aprender a conviver com isso, respeitar esse movimento e, se possível, fazer com que nossas reações melhorem um pouco. É o que estou tentando.
Correr, caminhar, fazer exercícios, buscar um tempo para si mesmo e para encontrar amizades –tudo isso é algo que nos ajuda a enfrentar esse momento. E precisamos de toda a ajuda que nós possamos dar a nós mesmos, pois a sociedade não está preparada para os velhos, ainda mais na quantidade que existe hoje no Brasil e no mundo.
É fácil entender isso quando analisados a evolução da expectativa média de vida dos homens no mundo.
No início da nossa era, que alguns chamam de Depois de Cristo, a duração da vida média estava entre meros 25 e 28 anos. Foi preciso nada menos que 19 séculos para que a longevidade humana aumentasse em média 50%, aproximadamente: nos início dos anos 1900 a expectativa de vida ficava entre 46 e 48 anos.
Pois bem, aquilo que levou quase dois mil anos para acontecer se repetiu em apenas um século. Com o progresso da ciência no século passado e a melhoria das condições gerais de vida, a longevidade humana voltou a crescer em cerca de 50% (em cálculos grosseiros, aproximados). Hoje, no mundo, a expectativa média de vida está entre 60 e 65 anos –no Brasil é cerca de dez anos mais do que isso.
É algo fabuloso, sensacional, revolucionário para o mundo. O melhor é que muitos de nós chegamos aos 60 anos e mesmo idades mais avançadas com saúde plena, ampla capacidade movimentação, intelecto saudável e disposição para continuar contribuindo com a sociedade e com o próprio desenvolvimento humano.
Este meu projeto é uma pálida tentativa de demonstrar as nossas possibilidades físicas. Mesmo não sendo nenhum atleta nem tendo um corpo formado no esporte, venho me desafiando a percorrer caminhos que, há alguns anos, seriam exclusividade de jovens fogosos. Hoje, somos velhos fogosos a desbravar horizontes.
Isso deixa a sociedade como um todo perplexa. Nós devíamos estar enterrados, hospitalizados ou quietos –só que não.
Merecemos e necessitamos de proventos da aposentadoria, que muitos governos –a começar pelo golpista brasileiro—tentam nos furtar. No mundo da perversidade neoliberal, em que desponta Temer, o Usurpador, dizem que precisamos trabalhar até morrer, querem mais e mais anos de produção desses homens e mulheres que estão vivendo mais.
Dizem isso, mas não criam as condições para que o emprego apareça. No Brasil, há 16 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, segundo dados do IBGE de 2015. Menos de um por cento desse grupo tem trabalho com carteira assinada ou algum tipo de registro oficial –como funcionário público, por exemplo.
Em números absolutos, 137.600 vagas de trabalho formais são ocupadas por homens e mulheres de 65 anos ou mais. Isso representa zero vírgula três por cento dos 48 milhões de trabalhadores na economia oficial.
Esses dados são de 2015. Desde lá, o desemprego arrasou a economia brasileira, destruiu vagas, arrebentou lares, jogou milhões na sarjeta. Os velhos e as mulheres são os primeiros, berram as estatísticas.
É contra agressões como essas que eu corro e chamo meus companheiros de geração a correr, a caminhar, a bradar que estamos vivos, queremos, desejamos, exigimos e merecemos um lugar ao sol, nos postos de trabalho, na produção e na apreciação da cultura, no esporte e no lazer.
Nem sempre conseguimos fazer tudo o que se espera de nós. Nem sempre conseguimos fazer o que nós mesmos esperamos de nós.
Gráfico mostra os quilômetros que percorri (em verde) e quual era a perspectiva de quilometragem acumulada para cada data (em azul)

De novo, o meu exemplo grita. No caminho para completar seiscentos quilômetros até o próximo dia 14 de fevereiro, deveria ter completado hoje a distância redonda acumulada de 400 quilômetros. Os sofrimentos do corpo e as intempéries da vida me deixam para trás em pouco mais de setenta quilômetros, é a minha dívida para os dias que vêm: além da quilometragem do dia, vou ter de recuperar aos poucos as distâncias não realizadas.
Não é impossível, como também não é impossível para a sociedade absorver o trabalho e as dores dos mais velhos. Para mim, basta meu esforço e um pouco de apoio da família, incentivo de treinadores e a sensacional torcida que recebo pelas redes sociais; para a sociedade é preciso muito mais. Há que revolucionar as políticas e promover a inclusão social, mão apenas dos velhos, mas de toda a população marginalizada, que pode, quer e deve vir a ser produtiva e feliz.
O problema é que isso se faz com democracia e projeto de desenvolvimento sustentado, que precisamos conquistar. O golpismo usurpador apenas estiola o tecido social, como vampiro a sugar o sangue que faz da sociedade um organismo vivo.
Ele precisa ser derrotado e eliminado.
VAMO QUE VAMO!!!



Percurso de 13 de janeiro de 2017
6,73 km percorridos em 1h24min11

Acumulado no projeto 600 aos 60
328,56 km em 67h22min15

Acumulado no projeto 600 aos 60

105,36 km em 20h23min22

10.1.17

Treinador Flavio Freire corre e festeja a passagem do tempo

Hoje exagerei de novo. A planilha pedia doze quilômetros, mandei quase um quilômetro e meio a mais. Isso não é coisa que se faça quando se está em processo de recuperação, quando se está tentando deixar ossos e músculos em boas condições de retomar as corridas da vida.
O fato é que me perdi na conversa. Convidei o treinador Flávio Freire, um dos mais experientes da cidade, para me acompanhar no treino de hoje. Eu sabia que o cara era bom de corrida, mas não imaginava que conversasse tanto –é que ele tem a maior cara de bravo, está sempre sério, concentrado.
Que nada, o sujeito fala pelos cotovelos, contando ótimas histórias. E ele tem muita história para contar, basta dizer que contabiliza mais anos de corrida do que a maioria da população brasileira tem de vida: começou a correr por volta dos 15 anos, neste ano completa 52 anos, faça as contas.
Mas não foi só por isso que convidei o Flávio para a etapa de hoje do projeto 60 Maratonas aos 60 Anos. O convite foi porque ele é um sujeito que respeita e festeja a passagem do tempo. Há dois anos, quando chegou aos 50 anos, tratou de comemorar como é do feitio dos corredores: correndo.
Juro que a gente não combinou a roupa de corrida
Inventou um desafio: participar de 50 provas ao longo do ano. “Isso á fácil”, você pode dizer. De fato, pode ter alguns complicômetros logísticos e financeiros, mas, para corredores experientes, enfrentar esse volume de corridas em distâncias médias, de 5 km a meia maratona, não é exatamente a coisa mais difícil do mundo.
Bueno, Flávio também sabia disso e inventou um desafio dentro do desafio. Competitivo que é, se propôs a ficar entre os cinco primeiros de sua faixa etária no maior número de provas. Tem de ser veloz e resistente: em média, para pegar pódio na categoria 50-54, é preciso correr os cinco quilômetros em 19 minutos e fazer os 10 km em no máximo 40 minutos.
Para ele, conforme me contou hoje enquanto corríamos pelas alamedas do parque Ibirapuera, não se tratava apenas de cumprir um desafio, mas sim de fazer uma espécie de manifesto de vida, de dizer a si mesmo que estava se preparando bem para a sua segunda metade de vida, que poderia fazer a nova etapa ainda melhor do que a primeira.
Os resultados comprovaram a excelente forma do treinador: em 88% das provas, chegou entre os cinco primeiros da sua faixa etária, sendo campeão da categoria em 27 corridas.
Que beleza, hein!
É bom saber, ainda, que Flávio não está sempre e apenas focado na obtenção de resultados na corrida. Busca orientar seus alunos para a conquista de melhor qualidade de vida e faz trabalho voluntário em um asilo de idosos.
Esses foram alguns dos temas da entrevista que, na manhã de hoje, transmiti ao vivo pela internet. Agora, especial para você, reproduzo o vídeo. 


Clique nele para acompanhar a conversa sobre esporte e saúde para os mais velhos e sobre um pouco da história das corridas de rua no Brasil.
Sobre isso, por sinal, Flávio tem muito a contar. Ainda vamos voltar a conversar bastante sobre os primórdios da corrida no Brasil. Enquanto isso, aproveite para conhecer a história dos primeiros passos desse importante treinador e atleta dedicado, que um dia conseguiu dar um “perdido” nas suas missões como Office-boy em um escritório na avenida Faria Lima para correr até o clube Pinheiros e se apresentar para um teste.
Os detalhes desse início Flávio me contou em um texto que mandou dias antes de nossa corrida de hoje –toda ela com intervalos, 300 metros correndo, 700 metros caminha.  É o que reproduzo a seguir (a foto é do arquivo pessoal de Flávio Freire).

A DESCOBERTA DA CORRIDA
“Quando eu era pequeno, tinha receio de participar de qualquer coisa que dependesse da velocidade da corrida: "pega-pega" e "esconde-esconde" eram algumas brincadeiras em que normalmente eu não era bem sucedido.
Na minha adolescência, meu pai aos finais de semana sempre gostava  ir correndo de uma casa para outra, comigo e o meu irmão mais velho. Percorríamos de três a cinco quilômetros, imagino, pelo menos era a sensação que eu tinha, pois quando somos pequenos tudo parece muito grande e muito distante. Também nessas "corridinhas" eu era sempre o último a chegar.
Quando eu tinha onze anos e estava na quinta série do ginásio, houve uma prova seletiva para definir quem ia representar a escola no evento de atletismo entre as escolas regionais. Fui o segundo colocado e fui um dos selecionados.
Estudava em uma escola que fica ao lado da USP, e esse teste foi realizado no quarteirão da antiga garagem de ônibus da Veterinária. Portanto desde pequeno  frequentei a Cidade Universitária, ora para fazer atletismo ou jogando futebol nas aulas de educação física da  escola, ora jogando futebol com os amigos da rua e do bairro.
Quando íamos com um grupo de amigos jogar futebol na USP, passávamos nas casas dos amigos para acordá-los e assim íamos fazendo até completar o grupo que ia a pé em um trajeto de dois quilômetros, mais ou menos. No caminho, sempre passávamos em frente do bosque da USP, víamos as pessoas dando voltas num lugar cercado, ficávamos curiosos sobre as razões delas e qual seria a distância da volta.
Na hora de escolher o time, não precisa dizer que eu sempre era um dos últimos, pois eu corria bastante durante o jogo inteiro, mas não tinha habilidade para ajudar o time.
Um belo dia, após o futebol, eu resolvi entrar naquele bosque que tanto me deixava curioso. Entrei e perguntei para uma das poucas pessoas que lá estavam, qual era a distância de cada volta e a resposta foi que tinha um quilômetro. Então eu pensei, vou tentar fazer uma volta, ou seja, mil metros, pois falando assim fica a impressão de muita coisa, "mil metros". Fiquei até com receio de me perder, mas estava mais preocupado em conseguir completar uma volta.
Consegui! Cheguei em casa eufórico, orgulhoso de mim mesmo, pois achava que toda aquela sensação de impotência quando dependia da corrida tinha acabado. Agora eu era um corredor de " mil metros". A partir de então, sempre após o futebol de final de semana eu passava no bosque para correr os meus infinitos "mil metros".
 Vale a pena lembrar que eu sempre fui motivado a praticar esporte, pelo exemplo do meu pai, que fazia musculação, boxe e judô, e pelo belo exemplo do meu avô paterno, que costumava acordar por volta das cinco horas da manhã e fazia uma serie de exercícios de calistenia na área  da minha avô, ele não falhava um dia. Ele também caminhava muito rápido para fazer a suas coisas e eu sempre tinha muita dificuldade para acompanhá-lo.
 Todos os dias eu fazia barras e alguns exercícios; quando completei 13 anos fiquei sócio da Associação Cristã de Moços (ACM) do centro da cidade. Lá eu fazia uma rotina de exercícios denominada “ condicionamento físico”. Tive vários professores, que sempre foram muito atenciosos comigo, mas vale a pena ressaltar um deles, ainda o vejo correndo pelas ruas da USP e em competições.
É o senhor  Araya, que adorava corrida e jogava xadrez na ACM. Jogávamos algumas partidas, mas eu ainda não gostava da corrida como ele. Ele era responsável por um departamento que levava os sócios para as competições e um dia me convidou para representar a ACM-Centro em um evento em Sorocaba. No dia da prova, como não tinha nenhuma experiência e nem orientação, comecei errado na minha rotina alimentar pré-prova, que era às 17h. Foi horrível,  mas ainda consegui ficar bem colocado na geral e fazer bons pontos para a minha unidade em SP.  
No começo de 1980, ano em que eu iria completar quinze anos de idade, resolvi fazer o famoso teste para tentar ser atleta do Clube Pinheiros. Foi um dia muito marcante na minha vida!
Conversei com o professor Valdir Barbanti, que era o técnico do clube, e ele me disse para falar com a Miriam Inês Braga Castelo Branco, professora de iniciação. Ela fez algumas perguntas e logo me orientou para fazer o aquecimento e pediu para chama-lá quando estivesse pronto. 
 O teste consistia em fazer em doze minutos a maior distância possível. No soar do apito dela terminava assim o teste, e  eu tinha que permanecer no local para ela aferir a distância total percorrida. Foi muito emocionante e até hoje fico arrepiado quando conto essa historia.
Na pista tinha muita gente treinando, atletas de várias modalidades, e eu um moleque franzino, fazendo um teste que poderia ser o início da minha carreira como atleta do maior clube do Brasil --um sonho de qualquer pessoa da minha idade na época.
Na medida em que fui dando as voltas, percebia e ouvia vozes de pessoas que estavam treinando e que pararam de treinar só para gritar, torcendo por mim, mesmo não me conhecendo. Não entendi nada, só pensava que tinha que continuar correndo e cada vez mais rápido.
Só hoje sou capaz de entender o motivo, pois eles talvez estivessem impressionados, como aquele menino tão magrinho estava tão compenetrado e correndo em um ritmo próximo de três minutos e três segundos por quilometro. Para um menino de quinze anos eu acho que justificava a torcida.
Quando terminou o teste, a professora Miriam logo me disse que eu tinha sido aprovado. Imagine a minha felicidade que pode compartilhar  com várias pessoas que vieram falar comigo. Foi fantástico!!! Foi um momento muito especial na minha vida.” 

VAMO QUE VAMO!!!


Percurso de 10 de janeiro de 2017
13,46 km realizados em 2h27min18

Acumulado no projeto 600 aos 60
299,38 km realizados em 61h41min41

Acumulado no projeto 60 M 60 A
76,17 km realizados em 14h42min48