23.6.17

Metade do caminho já se foi, agora é só morro abaixo!!!

“Agora toca uma das suas músicas”, pediu a garota, com um sorriso aberto iluminando de juventude seu belo rostinho.
Agarrado ao violão, que trazia abraçado ao torso nu, o rapaz seguiu dedilhando as cordas, de olhos fechados, o rosto oferecido ao sol primaveril, ouvindo apenas a si mesmo.
Minutos antes, ele pulara o cercado de ferro que protegia o túmulo, deitara ao lado da tumba, sentara em uma das bordas, erguera-se próximo às inscrições, saltara sobre as flores, fizera poses para fotos e agora, enfim, maltratava o violão enquanto cantava em voz baixa, que chegava até nós, tão próximos dele, apenas como um murmúrio.
Era alguma canção de Jim Morrison, por certo.
Estávamos no cemitério de Pére Lachaise, local de descanso eterno de heróis do povo francês, artistas, escritores, políticos, cantores e milhares de homens e mulheres comuns.
Naquele Dia dos Namorados, caminhava ao lado de minha namorada pelas alamedas da Casa dos Mortos para homenagear a vida: haveríamos de completar, nas ruas de Paris, metade do trajeto que me impus percorrer ao longo deste 2017 em que cheguei aos sessenta anos e entrei oficialmente para a comunidade dos velhos deste mundo.
No total, serão 2.532 quilômetros, cada metrinho –ou seria metrozinho?—devidamente computado, caminhado, corrido, suado, sofrido.
Ao longo do trajeto, vou assuntando sobre os assuntos dos veteranos, saúde, qualidade de vida, inserção social –o que somos, quem somos, o que podemos e o que queremos, nós todos, homens e mulheres chegados à Terceira Idade, muitos de nós aposentados, desempregados e, mesmo assim, arrimo de família.
É quase um despertar para uma nova idade adulta. Ao longo da vida de trabalho, muitos de nós sonhamos com esse momento, em que enfim seremos independentes, em que enfim teremos tempo para cuidarmos de nós mesmos, para ler, estudar, viajar, aprender mais um idioma, encontrar novas parecerias ou reaquecer os amores de sempre.
Nem sempre isso acontece. Na vida, como na corrida –ou seria o contrário?--, os tropeços são muitos, muitos deles muito doloridos. Há sempre, como percebeu o poeta, uma pedra no meio do caminho.
O corredor passa por ela, pula por sobre ela ou esbarra nela, mas, como os viventes todos, segue seu trajeto.
É o que venho fazendo desde o dia primeiro de janeiro deste ano. Os tais dois mil, quinhentos e tantos quilômetros prometidos para o ano se dividem em meses, semanas, dias.
Quase todos os dias saio para enfrentar um trajeto, cumprir uma distância, encontrar alguém que fale sobre a velhice ou a corrida, caminhando juntos para descobrirmos mais um pouco sobre nós mesmos.
Em média, consigo completar pouco mais de cinquenta quilômetros por semana, faço no mês em torno de duzentos e vinte quilômetros, distância que pode ser impossível para alguns ou mamão-com-açúcar para outros.
Para mim, é algo inédito. Quando, pouco depois dos quarenta anos, comecei a correr e me apaixonei pelas longas distâncias, maratonas e ultramaratonas, costumava fazer em torno de dois mil e quatrocentos quilômetros por ano.
Assim foi por mais de uma década, até que a vida começou a cobrar a fatura em dores musculares, hérnias daqui e dali, fraturas, estresse, inflamações, torsões, preguiça e desânimo. Nos últimos dez anos, mal tenho passado dos mil quilômetros a cada doze meses; nos anos bons, chego a mil e oitocentos quilômetros e festejo muito.
Vai daí que as tais sessenta maratonas aos sessenta anos são um desafio e tanto para este corpo cansado e um tanto maltratado, para este espírito teimoso, esperançoso, mas também muitas vezes triste, cansado, submisso à preguiça, à falta de vontade, ao desencontro.
Apesar de tudo, sigo e persigo. A soma dos quilômetros é prova disso. E chegar à metade do percurso já é uma conquista, uma medalha de honra ao mérito –ok, meia medalha de honra ao mérito...
Festejei a meia-meta com muita correria. De uma só vez, participei de três meias maratonas em três semanas seguidas –um estresse considerável para este corpo gordo e cansado. Foi muito legal, e cada prova há de merecer um relato especial, particular e ilustrado.
Mas a metade do percurso, de verdade, só fui atingir depois delas, dessas três corridas muito especiais. Foi em Paris, no Dia dos Namorados.


Ainda falta muito para o final, mas bem menos do que faltava quando comecei. Em contrapartida, o corpo já mostra sentir o esforço até agora desempenhado.
Pode ter sido essa a razão de minha desatenção em um treino, no início de maio, quando tropecei numa falha de calçada e fui ao chão em queda violenta e espetacular, que quebrou vários ossos de dois dedos da minha mão direita e ainda rachou um dos ossos do antebraço.
Pode ser também o estresse, o treino que o corpo considera excessivo, causa de alguns sinais deletérios na minha pressão e no comportamento do coração.
Por causa disso, por precaução, para manter a saúde, respeitar os avisos do corpo e os limites que a idade impõe, vou procurar dar uma reduzida na intensidade com que me dedico aos treinos.
Sonhava em fazer uma maratona no segundo semestre; abortei a ideia. Mas mantenho o compromisso de seguir na média de volume semanal necessária para completar 2.532 quilômetros até o final do ano.
Serei talvez ainda mais lento. Mas são compromissos, negociações que precisamos fazer com o corpo para que ele continue feliz, a gente siga vivo e, na medida do possível, feliz e satisfeito.
VAMO QUE VAMO!!!

Treino do Dia dos Namorados de 2017


9,53 quilômetros percorridos pelas ruas de Paris em 2h30min04

Distância acumulada no projeto  60 MARATONAS AOS 60 ANOS
1.368,69 quilômetros percorridos em 240h16min11

  

25.5.17

Reflexões sobre tombo de um corredor maior de sessenta anos

Ontem, pela primeira vez desde o último dia quatro de maio, consegui amassar a banana de meu café da manhã usando a mão direita, quebrada em uma queda quando recém passava da marca dos dez quilômetros em um treino que deveria se prolongar três vezes mais.
Quebrei o dedo anular direito em vários pontos, afetando as articulações. Também quebrei o dedo mingo e ainda fiz uma baita de uma fratura no rádio, que é um dos ossos do braço (aquele que se liga ao dedão, a “antena” do rádio).
Tudo doeu muito. Nestas três semanas que se passaram desde o acidente, porém, o pior não são os reclames dos dedos, que ficaram torcidos na queda, nem tampouco os lamentos do cotovelo, em que o tal osso está rachado de fora a fora.
O pior são as dores musculares, as pontadas em tendões e tecidos do braço e do antebraço. Conjuminantemente, a falta de força.
Falta força por duas razões: não posso utilizar os dedos quebrados, é claro –eles não são muito “pegadores”, mas dão sustentação e substância à ação da mão; e os músculos estão em forte contratura, impedindo ou dificultando alguns movimentos do braço.
Torcer a chave na fechadura, por exemplo, ainda manda ao cérebro sensação de dor aguda, alfinentada cruel. Tentar abrir ou fechar a porta do carro provoca humilhante experiência de fracasso, e eu sou obrigado a recorrer aos bons serviços de meu braço esquerdo.

Na terça-feira passada, a órtese que protege aos dedos quebrados foi mais uma vez ajustada, pois aos poucos a mão, que esteve superinchada, volta ao seu tamanho normal. Também foi um pouco reduzida, deixando de fora a ponta do dedo anular, o que é um grande avanço e, ao mesmo tempo, pouco assustador, porque o deixa mais vulnerável.
Como não tenho um controle perfeito da ponta do dedo, temo batê-la onde não devo ou mesmo torcer... A boa notícia é que consigo movê-la apenas com impulsos cerebrais, sem precisar usar força mecânica.
Melhor que nada.
Esses avanços, porém, não deixam de lado a lembrança da queda. Imagino que todo corredor de rua –ou quase todos ou muitos ou um grande número, sei lá—já sofreu algum escorrega, algum tombo , algum perrengue ao longo de sua vida corrida.
Cair não é desdouro para ninguém. Mas não deixa de ser resultado de uma falha. Por mais que as calçadas de São Paulo sejam uma porcaria, território minado, circuito de cross country repleto de malvadezas, quem corre na rua sabe disso e sabe que precisa ficar sempre atento.
Do que meu lembro, minha queda se deveu a um momento de entusiasmo. Eu vinha fazendo planos para o treino, que chegaria aos trinta e dois quilômetros. Também fazia cálculos sobre o andamento de meu projeto, as tais sessenta maratonas aos sessenta anos, e sonhava acordado com a conquista de apoiadores e patrocinadores.
Combinando-se a isso, vi pela primeira vez uma calçada larga e livre à minha frente. Quis aproveitar, acelerar, e não notei as falhas no cimento do piso. Meu pé direito foi travado no desnível do terreno, e eu me fui.
Pausa literária. Ao escrever a última oração, me lembrei de que no Rio Grande do Sul grandes declamadores de poesia arrancam aplausos entusiasmados e lágrimas emocionadas e sofridas da plateia com um singelo poema que tem apenas este texto: “E ME FUI”, repetido dezenas, centenas de vezes, com raiva, desânimo, entusiasmo, lamento, um canto gaúcho à vida e à morte. Coisa de gaudério.
Pois me fui. Restam do tombo as dores e essa humilhação, vergonha de errar, de falhar na brincadeira.
Não foi a primeira vez.
Meu primeiro tombo em corrida aconteceu no século passado, em Paris. Corria pela primeira vez no Bosque de Bolonha (Bois de Bologne) e não percebi que, sabe-se lá por qual perversa razão, alguns gramados e calçadas são cercado por um fio quase invisível armado a cerca de vinte centímetros do solo.
Para mim, foi totalmente invisível. Ao cruzar uma daquelas alamedas, minha passada ficou presa no fio e lá fui eu ao chão, atingido o solo com meu joelho esquerdo.
Rasgou a calça do agasalho que eu usava –estava muito frio naquela manhã—e lanhou a carne, deixando perna e calça bem ensanguentados...
A pele curou logo, mas a calça só foi consertada na volta ao Brasil. Eleonora não só fez um belo cerzido como também costurou por sobre as marcas da queda um brasão muito elegante que eu levara da França.
Essa foi a única queda sem efeitos colaterais. Nas outras –não foram muitas, mais quatro apenas, que eu me lembre--, enfrentei muitas dores musculares, arreganhei tendões e, finalmente, quebrei ossos.
Caí na avenida Sumaré e caí na Oscar Freire. Nas duas, protegi o corpo com o ombro, na primeira o esquerdo, na outra o direito. Foi quando conheci o manguito rotador, músculo que fica atrás do bíceps e é responsável pela rotação do braço. É muito lindinho, querido e eficiente, mas, quando se machuca, é o cão.
A inflamação dói, e o tratamento é chatérrimo, tudo responsabilidade do próprio paciente –eu, no caso--, que precisa fazer exercícios com precisão e acuidade. Demora, mas tudo volta aos seu lugar.
As outras duas quedas aconteceram nestes tempos de quase-velhice e início da Terceira Idade. Ambas tiveram consequências bem mais graves...
Em Passo Fundo, há dois anos, tropecei numa “tartaruga”, esses marcos separadores de faixas de rua, e fui deslizando pelo asfalto. Lanhei testa, mão, braço, perna, joelho, uma sangueira só.
O pessoal de uma padaria de esquina foi gentil o suficiente para deixar que eu lavasse um pouco as feridas. Mesmo assim, liguei para a Eleonora avisando que eu ia chegar ao hotel sangrando, mas que estava tudo bem.
De fato, no entando, não estava, e eu só fui sentir o drama dias depois. Além do manguito machucado de novo surgiu uma tal de capsulite adesiva, tudo combinando com inflamação de tendão. Uma beleza.
Essa tal capsulite adesiva “cola” tecidos de modo que a gente não consegue mandar os necessários impulsos para avisar o braço para se mover. Nos primeiros dias, eu não conseguia nem fazer sinal para o ônibus parar –precisa ficar todo torto e suar o braço esquerdo...
O tratamento é bem demorado, pelo menos seis meses, e MUITO DOLORIDO: um passei aos berros TODAS as sessões de fisioterapia. Nelas, a terapeuta basicamente força o braço a se mexer,a ganhar amplitude de movimento, para “descolar”  à força aquela tal c´psula colada.
E agora me veio esse tombo na Domingos de Morais, em plena Vila Mariana...
A queda não fui suficiente para me fazer parar. Dois dias depois do atendimento de urgência eu já tinha voltado aos treinos.


E ontem, depois de comer a tal banana amassada com minha mão direita, ainda meti um treino de dezessete quilômetros sem dor e sem cair.
Pode ser pouco para alguns, muito para outros tantos. Para mim, é melhor do que nada. Não tá morto quem peleia.

VAMO QUE VAMO!!! 

12.5.17

Histórias de Aquiles, do MPB4, guerreiro da democracia e da música popular brasileira

Uma das coisas boas de escrever no próprio blog é que não se precisa dar bola a regras, regrinhas e regrões bestas (ou nem tanto) inventados por chefes, chefinhos, chefões, chefetes, patrões et caterva. Apesar de gostar de manter uma saudável distância crítica e cética dos assuntos de que trato e dos meus entrevistados, de vez em quando é salutar soltar a franga, mergulhar no dito “new journalism”, fazer jornalismo gonzo e virar tiete. Como agora.
Adoro o MPB-4. Sempre gostei e hoje gosto mais ainda desse grupo vocal, que, na minha adolescência, aparecia sempre como parceiro inquebrantável de Chico Buarque. Os dois, Chico e MPB4, eram símbolos da resistência à ditadura, da coragem, do enfrentamento, da rebeldia.
Eu devia ter uns dezesseis anos quando assisti pela primeira vez a um espetáculo ao vivo do Chico com o MPB-4. A ditadura estava firme e forte, Brasil Grande, ame-o ou deixe-o, tortura correndo solta, a esquerda armada destruída, o general Médici servindo-se dos louros do tricampeonato mundial da seleção brasileira.
O show foi em Porto Alegre, no ginásio do Grêmio Náutico União, e a galera inteira cantava junto, com raiva e ódio, cada música entoada por Chico, secundada pelo MPB-4. Numa dessas, acho que estavam cantando “PESADELO”, ouve-se um estouro e as luzes se vão, o ginásio fica às escuras (CLIQUE AQUI PARA VER UM CLIPE DE “PESADELO”).
Isqueirinho para cá, isqueirinho para lá, fósforos, todo mundo meio receoso, será que haveria algum ataque, era a polícia ou só sabotagem de algum filho da puta?
Naquela confusão, de repente se ouviu um sonzinho. Sei lá quem, se o Chico ou os caras do MPB4, metia a boca no trombone, seguia com “Pesadelo” à capella, e, aos poucos, todos nós, o público, fomos também cantando juntos.

Foi maravilhoso.

Depois voltou a luz, tudo transcorreu em paz em sossego.
Passaram-se mais de quarenta anos e, pela primeira vez, conversei ao vivo, cara a cara, como se fôssemos iguais, com um daqueles monstros sagrados do MPB4.
Encontrei o fulano nas redes sociais e nem acreditei quando ele respondeu ao meu chamado. AQUILES RIQUE REIS, o Aquiles do MPB-4, aceitou se somar à CORRIDA POR MANOEL, evento esportivo-político-cultural-jornalístico que realizei no ano passado (CLIQUE AQUI PARA SABER MAIS).
Aquiles, de camisa salmão, na ponta esquerda do grupo
Participou em pessoa da jornada de abertura daquele projeto, que produzi para marcar a passagem de quarenta anos do assassinato do metalúrgico Manoel Fiel Filho nos porões da ditadura militar.
De lá para cá, conversamos algumas vezes. No meio da confusão da luta contra o governo golpista no Brasil, ajudei a organizar, com o grupo CORREDORES PATRIOTAS CONTRA O GOLPE, a primeira CORRIDA FORA TEMER. Pois Aquiles estava lá para ajudar na divulgação do evento. Até gravou um filme para apoiar a convocação de manifestantes para a corrida e caminhada na avenida Paulista.

Agora, para este projeto de sessenta maratonas aos sessenta anos, Aquiles concordou em falar comigo sobre o envelhecimento.
Nas nossas conversas anteriores, Aquiles, que faz sessenta e nove anos neste mês,  sempre foi muito simpático. Na entrevista, ele se derramou, contou histórias de infância, discorreu sobre os males e alegrias da envelhescência, falando sem peias até sobre questões mais intimas, como separações e depressão.
Foram horas de conversa, com idas e vindas, que tento agora traduzir em uma nova ordem, começando pelas descobertas que Aquiles fez na maturidade.


Muita gente fala da crise dos 40. Eu não tive “porra” nenhuma. Para mim 40, ou 38, 41, 42, foi a mesma coisa. Minha primeira grande crise, essa sim bem existencial, foi aos 50. Quando eu fiz 60, a crise veio dobrada.”
Como foi essa crise existencial?, pergunto eu.
Um sentimento de falta de perspectiva. “Pô, mas eu estou fazendo um trabalho importante, eu consegui uma coisa dificílima na vida, que foi ganhar a vida fazendo aquilo que gosto. Sendo dono do próprio nariz. Faço o que eu quiser. Se eu quiser eu não faço. E se eu não fizer eu não ganho dinheiro, então tem que fazer.”. Não tem como. Nesse momento, quando eu fiz 60 anos, eu estava recém começando na descoberta de que eu sabia escrever. Isso me dava um alento. Aí eu fiquei deslumbrado com essa possibilidade, que começou a ficar cada vez mais palpável porque aí eu comecei a escrever para um jornal, dois, três. Apesar de serem jornais de médio porte, para mim era como se eu estivesse escrevendo no “The New York Times”.”
Aquiles escreveu nas páginas de Esporte da “Folha de S. Paulo”, e publicou crônicas da editoria de Cidades do “Jornal do Brasil”. Até que, em plena democracia, enfrentou censura no jornalismo. O caso se deu assim:
Eu já era contratado do JB, que tinha sido comprado pelo “O Dia”. O Aldir Blanc tinha uma coluna no “Dia”, e eu fiquei sabendo que ele foi dispensado. Ele tinha escrito algumas coisas falando mal do governador da época, nem lembro quem era, perdeu o emprego. Eu soube daquilo e escrevi um último parágrafo na minha coluna falando que considerava um absurdo aquilo e que essa coisa tinha que ser mais falada, mais divulgada. E dizia: “Com a palavra os donos do jornal “O Dia”.”
"Quando saiu a minha coluna, o cara tinha cortado esse parágrafo final. Eu liguei para lá, não atendeu. Era Nilo Dantes, diretor de redação na época. Atendeu um outro rapaz, que foi quem, talvez inocentemente, me disse o que aconteceu: “O Nilo pediu para tirar.”. Eu mandei um e-mail, já que ele não me atendia, dizendo que não tinha mais o que fazer ali.

“Eu tomei essa decisão, mas fiquei muito chateado, porque tinha sido uma conquista. Assim como fora uma conquista, anos antes, quando eu consegui escrever em alguns números no “Pasquim”. Essa possibilidade de escrever me trouxe um ânimo muito grande. Porque é uma coisa que chega já quase como doso. Quando eu cheguei aos sessenta anos, já escrevia. Aí passou mais um tempo, nos anos 60,  quando eu comecei a escrever só sobre música. É o que eu faço hoje.”
Depois de escrever muito sobre política, Aquiles hoje faz resenhas semanais de discos, tratando cada novato ou artista superexperiente com muito carinho. Os textos são publicados em vários jornais e se espalham fácil pela internet afora.
Dá uma trabalheira danada ao cantor-escritor, que vê seu escritório atulhado de CDs, e passa horas ouvindo música para escolher o tema da coluna da semana.
Enquanto ele ouve seus discos, a gente volta no tempo para contar um pouco do início da jornada desse artista, que sempre teve sua vida entremeada com a política e as lutas populares.
Aquiles nasceu em 1948 em Niterói, que então era capital do Estado do Rio de Janeiro. A mãe era assistente social, o pai, professor de português, e a família “respirava política”.
Tudo começou com o CPC, o Centro Popular de Cultura de Niterói, que foi criado na minha casa. O CPC da UNE, que já existia, mandou um emissário, o ator Carlos Verezza, que foi a Niterói para nos orientar como constituir o CPC de Niterói, para apresentar os esquetes, apresentar as músicas, isso tudo foi feito na minha casa.
“Meu pai e minha mãe convidaram uma série de pessoas, que fizeram parte do CPC original. A essa altura, eu devia ter 15 anos, eu não me sensibilizava com aquilo, apesar de ser feito na minha casa. Eu ficava no meu quarto. Eu não me metia. E não serei capaz hoje de me lembrar o que fez me aproximar.”
Apesar dessa distância da gênese do grupinho teatral-musical engajado, Aquiles não estava afastado da militância política, como se vê nesta história:
A primeira vez em que eu fui preso foi antes do Golpe de 64, eu estava filiado ao Partidão (Partido Comunista Brasileiro). Num lugar perto de Niterói, Cachoeira do Macacu, houve uma invasão de terra. E me deram a tarefa – na época eu tinha uns 14, 15 anos— de ajudar a levar mantimentos.

“O pessoal do Sindicato dos Ferroviários, que era um sindicato muito ativo, muito forte, tinha feito uma assembleia para conseguir dinheiro para comprar gêneros de primeira necessidade, para levar para onde os caras estavam, tinham invadido, era São José da Boa Morte.
“Os ferroviários eram muito solidários. Eu fui com eles, a gente comprou saco de feijão, saco de arroz, saco de farinha. Enchemos um jipe de um dos caras e fomos para São José da Boa Morte. Chegamos lá, tinha gente para chuchu, famílias, crianças, velhos. Tinha assim, duas ou três lideranças, tinha um que era o líder geral, que encaminhava as discussões e que resolvia.
“Chegou a notícia que estavam vindo dois ônibus de Niterói com a Polícia Militar. Para desocupar. A Justiça tinha dado reintegração de posse.
“Começou aquela mobilização lá dos caras, esse líder principal afastou mulher, criança, idosos: “Vão embora. Vocês sabem como é que vai ser a chegada dos caras.” Foram embora. Ficou um pequeno grupo, e quem disse que eu vim embora? Com 15 anos, eu ia perder uma chance daquelas?

“Chegaram os caras, a polícia, e vieram alguns à paisana. Cercaram os caras, o grupo reduzido que ficou. Logo eles sacaram quem eram os líderes dos caras. Eram os que respondiam. “E quem é aquele ali?”, perguntou um polícia. Era eu. “Vem cá, vem cá.”. Eu fui. O cara com a arma desse tamanho na mão, “Como é seu nome? Você estuda?”. “Estudo.”. “Aonde?”. Eu falei o nome do colégio. “E seu pai e sua mãe sabem que você está aqui?”. Eu falei: “Sabem.”. “Como é o nome do seu pai?” Eu falei: “Geraldo Reis.”. “É mesmo? Quer dizer que o velho Geraldo agora não vem mais e manda o filho.”. Rapaz, aí meu sangue começou a ferver, e o cara, o líder dos camponeses, Gabriel, eu me lembro bem porque a minha mãe sempre se referia a ele como Anjo Gabriel, me segurou: “Calma, ele está querendo isso, ele está te provocando.”.
A história segue. Aquiles e os líderes dos camponeses foram levados para a delegacia de polícia local, para a cadeia. Mas estavam as coisas se arrumando, a polícia começando a fazer as burocracias da detenção, ouviu-se uma gritaria lá longe. Algum polícia foi ver o que acontecia e voltou assustado, apavorado até: do alto do morro desciam os camponeses, homens, mulheres e crianças, gritando e com suas ferramentas nas mãos. Vinham libertar os presos, vinham para o que desse e viesse.
Não sobrou polícia na delegacia. Quando os campônios chegaram foi só abrir as celas, soltar os companheiros. Aquiles não chegou sequer a passar a noite na gaiola.
Se isso contribuiu ou não para mudanças na atitude do garoto, o homem sessentão quase setentão não lembra nem afirma. Mas conta como nasceu o MPB4.
Eu aí me aproximei do grupo, do CPC de Niterói, e tinha o Miltinho, que chegou também. Não era para fazer grupo vocal, a gente funcionava mais como atores. Tinha músicas, claro, mas aí todo mundo cantava. Era horrível, muito desafinado. Foi aí, numa seleção quase natural, a gente foi pegando os que tinham um pouco mais de afinação.
O MPB4 em 1966

“O Miltinho tocava violão. O Rui chegou, e o Rui já vinha com uma experiência de um trio de bolero. A gente fez um quarteto, eu, o Rui, o Miltinho e a Ana, que era uma menina que participava do CPC que tinha uma voz muito legal. A parte musical do CPC ficou a encargo desse quarteto do CPC.

“A gente foi criando alguns repertórios fora da ideologia do CPC. O Miltinho na época fazia faculdade de Engenharia, era colega de turma do Magro. E ele sabia que o Magro era músico, o Magro tinha um conjunto de baile. O Magro tocava vibrafone nesse conjunto. O Miltinho convidou o Magro para ir assistir um ensaio. E o Magro, ao final do ensaio, se ofereceu.

“A essa altura a gente tinha virado um trio do CPC. A Ana tinha outras coisas para fazer, tinha ficado só o trio. Aí o Magro se propôs a fazer um quarteto. A gente fez o quarteto. Isso foi 1963. A gente ficou como quarteto do CPC até o golpe de abril de 1964 –quando a gente não usou mais o nome. O CPC acabou. Queimaram a UNE.
“O Miltinho e o Magro, estudavam na Faculdade de Engenharia. O Rui já era formado, trabalhava. E eu estava fazendo o segundo grau. A gente ficava vendo, lá em Niterói, os programas de televisão, shows, principalmente o da Elis Regina e do Jair Rodrigues, que era O Fino da Bossa. Era o sonho de uns caipiras de Niterói.
“Resolvemos tentar. Em julho de 1965, férias, nós pegamos um ônibus e viemos para São Paulo. Rapidamente a gente conheceu o Chico de Assis, um teatrólogo, ele juntou, nos apresentou o Chico Buarque, o Quarteto em Cy. Junto com o Quarteto em Cy, ele elaborou um roteiro, que musical, sambas antigos. Muito legal. O Magro cuidava dos vocais.
“A gente já veio para São Paulo como MPB4. Na época, antes do golpe, o Miltinho e o Magro fizeram um conjunto instrumental na faculdade, e eles inventaram esse nome de MPB5. Quando a gente montou o quarteto, ficou o nome, MPB4. O Chico de Assis nos apresentou para os diretores de O Fino da Bossa, o Milton Travesso e o Manoel Carlos, nós estávamos num camarim, nós cantamos para os caras ouvirem.
“O Fino da Bossa, na época, era num auditório da Record, tinha uma primeira parte que não era gravada. Era só um show para quem estava na plateia. A segunda parte é que era gravada, com o mesmo público. Era gravada e ia ao ar. Então iniciantes, de um modo geral, cantavam na primeira parte.
“Os dois diretores ficaram muito empolgados com aquilo, se encantaram, e já nos escalaram na segunda parte, ia ser gravada para ir ao ar, em seguida. E nós cantamos até com a Elis Regina.
“Isso, para nós que vínhamos para tentar ver se conseguíamos, foi um deslumbre! Isso foi logo no início do mês de julho. E começou a surgir: “Agora vocês não querem fazer o programa da Hebe Camargo?”. Ou então: “Vamos gravar um programa de entrevista?”  E a gente começava a ir nisso tudo, a essa altura a gente já tinha até um empresário, etava aparecendo para colocar a gente nos lugares. A gente dizia: “Até dia 31. Depois disso a gente volta.”.
“A gente fazia isso tudo, mas não tinha cachê. Não recebia dinheiro para isso. O dinheiro que a gente tinha trazido de Niterói já tinha acabado faz tempo. Na segunda noite já acabou o dinheiro. A gente fazia esses programas na Record, e em troca eles nos hospedavam no hotel, que na época era um máximo, que era o hotel Normandia. Ali na Ipiranga com a Santa Ifigênia. A gente ficava num “puta” hotel, sem ter dinheiro para almoçar e para jantar.
“A gente aproveitava, deixava para ir tomar café na última hora,  comia bastante, pegava algumas coisas, tinham uns queijinhos,  umas frutas, e levava. Foi um mês especialíssimo. De noite a gente passava fome, não tinha grana. Aí chega um amigo do Miltinho, que o Miltinho conhecia, o cara sacou que a gente estava meio a perigo e levou a gente para comer pizza. Que pizza maravilhosa! Que delícia!

“A gente dizia: “Até dia 31.” Uma semana antes de acabar o mês, o empresário e o próprio Chico de Assis nos deram uma prensa: “Não dá para ficar brincando de ficar aparecendo na Record, aparecendo na Tupi. Isso vai acabar. Vocês decidem. Ou a gente continua para fazer direito, ou vocês, por favor, comprem a passagem de ônibus e vão embora.”. Nós passamos uma noite num botequim, na diagonal do hotel. A gente passou a noite ali, bebendo para pensar no que ia fazer. Decidimos ali, naquela noitada, que a gente queria fazer isso mesmo. Todo mundo largaria o que tivesse fazendo, e assim foi.”


De fato. Apesar de problemas internos e das desgraças da vida –a morte precoce do Magro-, o MPB4 fez um enorme sucesso, construiu uma carreira honesta, combativa, apaixonada pela democracia, pelo Brasil e pela música popular brasileira. Assim o grupo completou em 2015 cinquenta anos de carreira, festejados com show e disco especiais.
Pedi a Aquiles que fizesse uma pequena lista com fatos marcantes, bons e ruins, na carreira do grupo.
O AI-5, Ato Institucional Número Cinco, de dezembro de 1968, que marcou o acirramento da violência e da brutalidade da ação da ditadura, foi a primeira lembrança ruim citada por Aquiles.
Nossa cabeça sempre teve muito a ver com política, inclusive por causa do nosso passado. Em 1968, quando teve o AI-5, a gente ficou na iminência de parar o grupo, porque estava um clima... O Chico, no  início dos anos 1970, viajou para a Itália. O Caetano e o Gil foram expulsos, foram para Londres. O próprio Edu Lobo... Houve uma revoada, e a gente, na condição de intérprete, se sentia sem matéria-prima.
“Esse momento foi muito marcante, pelo recrudescimento da ditadura, e pela impossibilidade de conseguir música nova para seguir a carreira.
“Até que outro fato importante veio na sequência desse, foi quando a gente já pensando seriamente em acabar. Surgiu uma possibilidade de participação num festival universitário lá no Rio, com uma música de um compositor que hoje em dia acho que nem faz mais música. Sílvio Silva Junior. Com parceria com Aldir Blanc.
“Eles pediram que a gente defendesse a música deles, que era “Amigo É Para Essas Coisas”. Até hoje é um dos nossos carros-chefes. Ali naquele momento deu uma arribada de novo. O moral da tropa subiu.
“Outro momento importante foi em meados dos anos 1970, quando o Chico decidiu que não ia mais fazer shows.
“Aqui cabe um parêntese, a gente começou a trabalhar com o Chico desde a primeira apresentação dele, logo depois da “A Banda”, que ele ganhou. A gente fez, desde o primeiro show numa boate com ele lá no Rio, até depois, no circuito universitário. Por exigência dele,  ele só fazia show se a gente estivesse junto. A gente dava um suporte, naquela época então ele tinha pânico de cena, uma coisa. Então ele se sentia respaldado não só musicalmente, mas até, sabe, a gente tinha uma ligação forte.
“Até que, em meados dos anos 1970, o Chico decidiu que não ia mais fazer show. A gente já tinha nossa vida profissional, decidimos seguir. Preparamos um texto, gente queria fazer um show em teatro, um show que tivesse texto. Comédia.
“A gente montou um espetáculo chamado “República do Peru”. Tratava de quatro caras que viviam num apartamento, e que tinha sempre uma entidade que vinha e dizia que ia levar esses quatro caras para fazer não sei o quê aonde. Foi, imagino eu, o princípio do que hoje se chama “besteirol”.  Era uma comédia que juntamos nós quatro, mais o Chico, o Rui Guerra, cineasta, e o Antônio Pedro, ator.
“Nós conseguimos fazer dois shows nesse embalo, e aí a gente começou a ter problema com a censura. Esse show, o “República do Peru”, nós estreamos numa quarta-feira. Fazíamos de quarta a domingo.
“Na quarta-feira seguinte, quando a gente foi retomar a semana de shows, a censura fechou o teatro. Proibiu. Todo o território nacional não pode mais.
Lista de mortos e desaparecidos na ditadura, homenagem do MPB4 aos combatentes pela democracia no Brasil

A gente ficou algumas semanas, alguns poucos meses tentando liberar a coisa. Nós fomos à Brasília. Eu me lembro do Rui indo à Brasília. Me lembro de nós dois na antessala do cara que mandava lá.
“A gente saiu de lá com o show liberado, a única coisa que eles quiseram, “Então você faz uma coisa, não chama ‘República do Peru’, chama ‘Rua República do Peru. Senão vocês vão me arrumar um problema internacional.”. “Tudo bem, vai ser ‘Rua República do Peru”. A gente fez. Foi muito sucesso. Ficamos todos muito contentes.”
A vida seguiu. A ditadura foi derrubada, começou a redemocratização no país. Aquiles e o MPB4 acompanharam o processo.
“A gente sempre foi muito político no palco. Não é à toa que os caras proibiam nosso show. Era muito atrevido. Quando veio a redemocratização, decidimos: “Vamos fazer um disco mais leve agora. Uma coisa que não tivesse tanta preocupação de estar indo de encontro aos caras, denunciando...”. E fizemos um disco que se chamou “Vira Virou”. Que, de fato, significou uma virada. A gente passou a encarar a música também como uma forma de distrair o público, de dar prazer às pessoas, de ouvir uma coisa bonita. Um vocal bem esquematizado. Esse disco deu uma presença muito boa para a gente. A gente começou a tocar no rádio, coisa que a gente já não tocava mais

O grupo também enfrentou uma grande tristeza, processos definitivos.
Um dos momentos mais importantes para o MPB4 é recente, foi a morte do Magro. Foi quando eu e o Miltinho –o Rui já tinha saído fazia tempo— conversamos depois do velório, a gente não sabia exatamente o que ia fazer. Chegamos a cogitar não fazer mais nada. A Mônica, viúva do Magro, nos falou ainda, não me lembro se foi um pouquinho antes da cremação ou se já foi no final, “Ele queria muito que vocês continuassem.”. Isso ficou na nossa cabeça.
“A gente tinha um show uma semana depois, resolvemos continuar, até como uma homenagem a ele, e a gente fala isso nos shows, para mostrar para todo mundo a importância que o Magro teve na carreira profissional do MPB4. A presença do Magro e a ausência do Magro foram duas coisas que marcaram. A gente traz isso até hoje, nos cinquenta anos do grupo.”
Enquanto faziam música, cantavam em shows, produziam discos, cada um levava sua vida. Aquiles está hoje no terceiro casamento, tem cinco filhos, dois netos.
As pessoas, quando falam em separação, já se lembram logo do Vinícius fazendo folclore... Vinícius dizia que para cada casamento que ele tinha ele comprava uma Barsa: “Vocês não fazem ideia de quantas enciclopédias Barsas eu tenho.”
“Não é assim. É muito sofrimento. Separação é uma coisa trágica. Eu não estou nem entrando no mérito se o casal devia ou não devia. Quando chega a hora, seja lá quem decidiu, foi um ou o outro. Ou se foi de comum acordo. Seja lá o que for, é um sofrimento. É muito forte. Muito forte. Felizmente depois desse segundo casamento, que nasceram os três, eu fiquei um tempo... Eu morava no Rio essa época. Até que eu conheci a Nilza, nós temos a Isabel, que fez 13 anos agora. Nós estamos juntos há vinte e poucos anos. Não desejo separação para o meu pior inimigo.”


As separações e outras amarguras levaram tristeza a Aquiles.
Eu tive grandes crises de depressão, crises brabas. Chegou um momento em que eu fazia cinco sessões de terapia por semana. É uma coisa muito desgastante. Quando você está na crise, é como entrar num lugar escuro, que você tem medo, não sabe onde você está pisando. Você imagina que tem um buraco no lugar. São coisas que você não consegue materializar, não consegue visualizar, mas que te incomodam.
“Sosseguei minha cabeça e resolvi vir para São Paulo, morar com a Nilza. Eu consegui nesses anos alguns mecanismos de defesa para perceber a hora que baixa a depressão. Tem momentos que parece que a depressão é muito forte. Você não identifica como começou, de onde vem. Às vezes é alguma coisa besta.”
Ao lado da análise e dos remédios, da escrita e da música, Aquiles também caminha.
Desde que eu morava no Rio eu gostava de andar. Logo que eu comecei a cantar eu tinha um apartamento em Ipanema. Eu andava até o Arpoador, depois vinha e andava até o canal do Jardim de Alá, que é o final de Ipanema. Depois eu me mudei para o Leblon. Aí eu andava pela areia... Depois eu me mudei para o Jardim Botânico. Aí eu andava em volta da lagoa Rodrigo de Freitas.

“Dá um distanciamento, a gente fica meio aéreo, o pensamento vai embora. Não tem um assunto que seja constante. Uma coisa que passa na cabeça e vai. Eu não paro. Caminhando. Mas eu não me desligo completamente. Isso é uma coisa que eu acho muito prazeirosa. Se desligar.”
No final do ano passado, porém, as caminhadas se transformaram em dor: “O meu pé doía muito, pé esquerdo doía na sola do calcanhar. Às vezes doía do lado. Mas doía muito. Eu andava mancando.”
O pé de uma perna muito “judiada”, como diz Aquiles, lembrando que a perna sofre desde que ele era garoto...
“Aos seis, sete anos de idade, quebrei o braço em uma queda na fazenda de meu avô, no norte de Minas. Foi fratura exposta, eu caí num curral. Subi, pulei do alto da cerca do curral, caí em cima da bosta, e o médico da cidade, lá do interior, não fez a assepsia, a limpeza que teria de ser feita. Aí me trouxeram correndo para a cidade, eu cheguei ao hospital já em choque em choque, infecção generalizada.

“Eu tive uma gangrena brutal. Foi um momento difícil também para os meus pais, porque eles tiveram que optar entre amputar, fazer uma prótese, ou deixar. Várias operações. A gangrena elimina o osso, cartilagem, tudo. Eu perdi o movimento do braço. Os médicos tiraram um pedaço do perônio (osso) da perna esquerda e botaram no braço, não deu certo. Anos mais tarde, jogando futebol, rompi os ligamentos do tornozelo e fraturei de novo o perônio...”
As caminhadas fizeram falta.
Se eu parar de fazer exercício e ficar muito sedentário, eu engordo.  Chegou uma época, uns dois anos atrás, três anos atrás, eu cheguei a ter 93 quilos. Encarei de novo caminhada, e tentei uma mudança alimentar, voltei para 85. Agora, sem as caminhadas, já devo estar chegando nos 90 de novo. E agora com essa dificuldade.
“Quando você faz exercício, você se sente saudável. Eu me sentia saudável. Quando eu chegava de uma caminhada, tomava um banho, eu me sentia bem. Não só ficar bem fisicamente, é você sentir que você está se cuidando. Ou seja, é aquela velha história, gostando um pouco mais de você mesmo. Quando você não gosta de você, não faz porra nenhuma.”
De minha parte, espero que o Aquiles continue gostando muito dele mesmo, cantando bastante, escrevendo bastante e caminhando bastante.
Dias antes de finalmente publicar este texto, baseado em entrevista que fiz com ele no início de dezembro do ano passado, voltei a conversar com Aquiles, que me deu ótimas notícias: as dores no pé tinham passado, e ele estava novamente fazendo suas caminhadas.
Mais, muito mais: ele estava metido até o último fio de cabelo da montagem e nos ensaios de um novo show do MPB, “Você corta um verso, eu escrevo outro”, que estrearia em São Paulo no início deste mês.


Foram apenas duas apresentações no primeiro fim de semana de maio. Que apresentações!!! Maravilhosas, emocionantes, deliciosas.
Só música boa, cada uma recheada de história, cada nota um libelo pela liberdade, contra a censura, o arrocho, as arbitrariedades, a ditadura –a de 1964 e a que tenta se instalar no país depois do golpe jurídico-parlamentar –midiático.
Chorei no início, chorei no meio, chorei no fim, prenhe de lembranças de minha vida e da vida do Brasil. E chorei o tempo todo em que o MPB4 e Bárbara Rodrix fizeram o bis, cantando “O Bêbado e a Equlibrista” emoldurados por sucessão de imagens dos duros tempos da ditadura, dos tempos gloriosos de resistência e de conquista (ASSISTA CLICANDO AQUI).
Tinha de terminar como terminou, um hino de luta, de rebeldia, de revolta, um grito de guerra: “FORA, TEMER!!!”

VAMO QUE VAMO!!!



Percurso realizado no dia 12 de maio de 2017

17,24 quilômetros em 2h47min09

Acumulado no projeto 60M60A
1.072,40 quilômetros percorridos em 190h34min18

PS.: No dia em que fiz a entrevista em que baseie esta reportagem, em dezembro do ano passado, também gravei um pequeno vídeo com depoimento de Aquiles sobre outro assunto de interesse deste blogueiro: o envelhecimento.
Um dia mostro o vídeo inteiro; agora, fica aqui apenas um trechinho das reflexões de Aquiles sobre a terceira idade. Resumo da ópera: “Aproveite a vida, amigo!”





9.5.17

Tombo de corredor na rua deixa dedo sem movimento e provoca reflexões doloridas em sexagenário militante

Catador de milho.
Não se trata de nobre profissão ligada às lides agrícolas, muito menos atividade do ramo da culinária. É tão somente apelido pejorativo, gravado em tom de deboche por experientes datilógrafos nos novatos, inexperientes e incompetentes no trato das máquinas de escrever.
São conceitos, profissões, alcunhas e equipamentos, todos eles, do século passado. Merecem explicação.
As máquinas de escrever, diz o noticiário internacional, continuaram no mercado até o início desta década. Em abril de 2011, a empresa indiana Godrej and Boyce encerrou a produção do equipamento –era, ao que se sabe, a última fabricante de máquinas de escrever ainda ativa no mundo.
A decadência viera a cavalo. Desde muitos anos antes a venda do produto era decadente. Por volta de 2008, nenhum dos repórteres que eu comandava, na redação do caderno Informática, da “Folha de S. Paulo”, jamais havia usado uma máquina de escrever.
Perderam (acho).
A máquina de escrever era uma obra de arte. Os conceitos que permitiram sua construção datam do século 18, mas muito antes, em 1575, um tipógrafo italiano, Francesco Rampazzetto, já inventara um equipamento para imprimir letras em papel.
O equipamento que chegou ao século 20, porém, é fruto de evolução ocorrida ao longo do século anterior, quando muitos inventores criaram modelos os mais diversos. Até um brasileiro entrou na dança, o padre paraibano Francisco João de Azevedo, que apresentou seu invento em exposições em Pernambuco e no Rio, em 1861, sendo premiado pelo imperador dom Pedro Segundo.


As primeiras fábricas são da segunda metade do século 19. Quando chegou o novo século, os escritórios mais modernos já contavam com máquinas reluzentes, produzidas em ferro.
A estrutura básica ficou sempre a mesma: um rolo por onde rodava o papel, uma fita de impressão movida por roldanas e um teclado que comandava as teclas em cuja ponta estavam colocadas as letras. Quando a tecla batia na fita, deixava impresso no papel a letra desejada.
O processo de escrever era muito barulhento. Girar o rolo por onde passava o papel, para que ele subisse e pudesse uma nova linha ser escrita, produzia o clec-clang das engrenagens; havia uma campainha que avisava que tinha terminado a linha. E, sobre tudo isso, como uma nuvem sonora, reinava o tec-tec-tec nas teclas batendo no papel, impacto só um pouquinho, um tantinho apenas diminuído pela fita tintada, que podia ser preta, vermelha ou preta e vermelha.
Teclado lembra o da máquina de meu avô
Meu avô Ary, o único que conheci, tinha em seu escritório, na casa mesmo em que morava, uma enorme máquina de escrever. Preta, toda preta –quase toda: as teclas, redondas, em baixo relevo, tinham fundo verde escuro onde era escrita em branco (ou bege ou gelo, qualquer coisa meio desmaiada) a letra em questão.
Nunca usei a máquina de meu avô, que eu saiba. A primeira que usei foi a de meu pai, vários anos depois.
Era um modelo bem mais moderno, ainda que também todo feito em ferro. Clara, em tons de bege e marrom claro, ficava montada sobre um estrutura feita  –hoje imagino eu—de grosso papelão e couro de ótima qualidade. Tinha tampa também de couro, tudo de um laranja escuro bem elegante; quando fechado, o conjunto se assemelhava a uma maleta de boas proporções. A máquina era portátil.
Máquina semelhante à de meu pai
Foi nela que escrevi meus primeiros contos. Foi nela que produzi meu primeiro livro. Foi nela que treinei aloucadamente datilografia para enfrentar um concurso para o que seria meu primeiro emprego de carteira assinada, em meios de minha adolescência.
Precisava treinar mesmo, porque datilografia era uma arte, uma técnica, uma habilidade muito prezada nos escritórios de então. Secretárias da diretoria deveriam ser “exímias datilógrafas”; mesmo para vagas muito subalternas, como a de auxiliar, que eu pretendia, havia exigência de desempenho e produção.
Pois datilografar não significa apenas grafar com os dedos, como indica a etimologia da palavra. Há muito mais. Envolve especialmente a capacidade de copiar textos batucando no teclado com os dez dedos, sem olhar as teclas ou o papel em que o artigo está sendo impresso.
A habilidade se desenvolvia por ensaio e erro, repetição em cima de repetição, memorização completa e absoluta do posicionamento de cada letra no teclado. A memória da letra ficava na ponta dos dedos, talvez.
Um bom datilógrafo escrevia um ditado no escuro ou de olhos fechados.
Havia cursos, aulas especiais para ensinar a arte. Mas eram caros, assim como os ensinamentos por correspondência, comuns na segunda metade do século passado. Se nem isso fosse possível, manuais baratinhos garantiam que, com persistência, qualquer um aprenderia o riscado.
Eu não.
Tentei muitas vezes, usando livrinhos ensebados como orientação. Olhe apenas o texto a ser copiado, não desvie os olhos para o teclado, deixe as mãos pousadas acima das teclas, soltas, pairando no ar, enquanto os dedos se movimentam...
Nada disso funcionava comigo. De tanto tentar, pelo menos memorizei a posição das teclas. Mas jamais consegui imprimir o “A” com a mesma intensidade, força e cor do “S”. Para acionar a primeira tecla, era preciso usar o mindinho da mão esquerda; para o “S”, o forte indicador dava verdadeiro coice na tecla, repetido em seguida no “G” das primeiras lições, que envolviam escrever vezes sem conta a maldita sequência ASDF e, na evolução, ASDFG. Com a mão direita, fazia-se ÇLKJ e, depois, ÇLKJH. Na evolução dos exercícios, era preciso alternar as sequências na mesma linha, produzindo blocos e blocos de ASDFG ÇLKJH.
Algumas letras nem sequer eram impressas, nas minhas tentativas. Outras ficavam fortes demais. Muitas vezes, me esquecia de acionar a barra de espaços, o que deveria ser feito com o dedão, ora o da mão direita, ora o da esquerda.
Com o que me tornei catador de milho, ou seja, o sujeito que, incapaz de usar os dez dedos das mãos para comandar o teclado, emprega apenas o indicador da mão direita e faz uso da esquerda somente para apoio –troca de linha, acionamento da maiúscula e outras particularidades.
Cartuns da época, que reverberavam o termo pejorativo, mostravam o catador de milho como uma espécie de deficiente mental, deficiente motor ou sei lá que mais. Vem-me à memória ilustração ou desenho animado  em que um sujeito de olhos revirados, cabeça girada para um lado, babão, tenta acionar uma tecla com um indicador em riste. Enfim, o complemento do perfil de um débil mental seria a inabilidade para acionar o teclado da máquina de escrever ... Dã!
Descobri que usar os dois indicadores não era boa prática. O resto da mão ficava pesando do lado e havia pouca agilidade dos movimentos. Aos poucos, fui acrescentando à dedografia o “pai de todos”, batucando alternadamente com um e outro, usando as mãos esquerda e direita com algum grau de agilidade.
Claro que tinha (tenho) de ficar sempre olhando o teclado, conferindo de vez em quando se aquilo que eu havia datilografado (ou pensado que tinha datilografado) era exatamente o o que havia sido impresso no papel em frente. Se fosse para copiar algum documento, sai de baixo, tinha de ficar olhando para o original, olhando para o teclado e olhando para o papel na máquina!!!.
Mas dava certo. Tanto é que passei com alguma facilidade pelo tal teste para me tornar auxiliar de escritório em um banco de Porto Alegre. Era preciso datilografar a um ritmo de 160 toques por minuto; minha média, se bem me lembro, estava em 180. Melhor do que nada para um dedógrafo catador de milho.
O emprego no banco não durou quase nada, três dias apenas entre o registro da admissão e minha carta de demissão, mas segui escrevendo à máquina, usando a máquina de escrever com habilidade crescente. Nunca cheguei a ser exímio datilógrafo (ou digitador, nos termos informáticos de hoje), mas ganhei capacidade mais do que suficiente para não ser chamado de catador de milho.
Escrevi em dezenas de máquinas diferentes, conheci os primeiros teclados dos primeiros terminais de computador a funcionar no Brasil, experimentei teclas de plástico e de baquelite, de computadores portáteis e de equipamentos de mesa, as minúsculas teclinhas malditas dos primeiros telefones com teclado e os teclados virtuais que aparecem nos brilhantes vidros (telas) sensíveis ao toque de nossos laptops, tabuletas eletrônicas e telefones celulares.
Agora mudou tudo. Um tombo na manhã da última quinta-feira machucou profundamente minha mão, esmigalhou a base de um dedo por quem tinha grande simpatia e ainda provocou fartura no cotovelo, reduzindo minhas forças e a capacidade de movimentação do braço direito. 

Pelo que me lembro, foi assim: eu tinha acabado de completar dez quilômetros de um treino em que deveria inteirar vinte e sete quilômetros, na minha busca de sexagenário para completar, ao longo deste ano, distância equivalente à de sessenta maratonas somadas todas elas e transformados em um pacote só.
O treino, como todos os outros que venho fazendo desde que sofri uma fratura por estresse no joelho direito, era aos soluços: corrida oitocentos metros, caminhava duzentos metros, corria de novo, caminhava novamente e assim por diante. Seriam 25 blocos dessa sequência, mais um quilômetro caminhado antes e outro depois.
Era para ser um treino de 27 quilômetros; o tombo atoru a distância para apenas dez quilômetros e trezentos metros

É um exercício de paciência, um teste de concentração, mas dificulta chegar àquele estágio gostoso dos treinos longos, em que o pensamento viaja, e o corpo parece imune às vicissitudes da vida.
Apesar disso, eu conseguia deixar a mente livre dos problemas do dia a dia, da velhice, do viver. Ficava contando quilômetros, sentia que estava mais rápido do que em treino anterior, começava a calcular em quanto tempo completaria o treino, sonhava com reconhecimento de meu esforço, imaginava que conseguiria, enfim, patrocínio ou, pelo menos, apoio que tornasse menos custosa a trajetória até o final deste ano.
Completei o décimo quilômetro em sete minutos e cinquenta e um segundos. A mim, pareceria que eu estava acelerando sempre –noto agora, porém, ao revisitar o mapa de desenho produzido pelo relógio com GPS, que foi aquele exatamente o quilômetro mais lerdo de todo o treino.
Não era a sensação que tinha. Ao contrário, me imaginava melhorando tempos, completando mo treino todo com vantagem, talvez, de mais de cinco minutos em relação à ultima experiência em distância semelhante.
Não quer dizer nada, ninguém ganha nada com isso e está longe de ser um assombro, mas significa que alguma coisa certa estou fazendo ao longo dessa minha preparação. É uma preparação, de certa forma, sui generis, pois não tenho por objetivo alcançar um tempo, quero apenas continuar correndo e, se possível, aumentando a quilometragem sem me machucar. Assim, eu me preparo para estar preparado e fico preparado para me preparar.
Preciso treinar. Meu corpo nunca foi e nunca será o de um atleta; nasci para ler, escrever, ficar atirado num sofá vendo televisão e comendo batatas fritas.
Bueno. Não costumo comer batatas fritas, não vejo televisão e, de certa forma, ainda que com muitas limitações, sou um atleta. Velho, cansado, machucado, mas construindo um caminho, mesmo torto e nem sempre elegante.  
Assim é que, pouco depois do décimo quilômetro de corrida na manhã daquela quinta-feira fria, que tinha começado com grande nebulosidade, uma cerração firme mais comum em dias invernais, eu me sentia satisfeito, tinha a mente limpa e parecia até veloz.
Para melhorar as coisas, atravessei a rua Doutor Pinto Ferraz, que foi um professor de direito, para chegar a um raro quarteirão largo da rua Domingos de Morais, que presidiu a Companhia de Bondes de São Paulo no final do século dezenove. Não só largo como também razoavelmente vazio...
Mesmo com a mente à voltas com cálculos de tempo e sonhos de patrocínio, percebi que havia ali uma janela de oportunidade para a velocidade. Acelerei, movi as pernas mais rapidamente, inclinei um pouco mais o corpo para a frente.
E tropecei. E caí.
Do jeito que vinha, não deu tempo nem para me proteger na queda. Vi o chão chegar e percebi que ia bater de cara no concreto. Ainda pude notar o desvão no cimento que interrompeu minha caminhada, ainda deu para mexer o corpo de jeito tal que não sei qual.


Senti a cabeça, de lado, encostar no chão, no cimento, ralar o concreto. Desmaiei, talvez, imagino, por alguns décimos, centésimos de segundo... Se não desmaiado, com certeza imóvel, talvez tentando perceber e avaliar o grau do estrago.
De cada lado, alguém pegou meus ombros, começaram a me ajudar a me virar, a me levantar. Consegui dizer: “Quebrei o braço!”, e foi só, estava absolutamente sem saber o que fazer.
Perguntei a um dos homens que me ajudaram se havia sangue na minha cabeça, no meu rosto. Nada, me disseram, e ainda perguntaram se eu precisava de ajuda. Agradeci, disse que não. E então, só então vi minha mão direita.
O dedo anular tinha saltado, se transformado em ponte sobre o “pai de todos”, numa versão aterrorizante de dedos cruzados –no passado, entrelaçar os dedos significava ficar liberado de um juramento ou que se estava dizendo uma mentira, com pleno conhecimento do fato, mas perdoado pelos poderes do universo graças ao tal sinal.
Essa espécie de figa protetora, usada pelos primeiros cristãos como forma de fazer uma cruz sem atrair a atenção de perseguidores de sua fé, porém, era sempre construída com o indicador e o “pai de todos”, o dedo médio, nunca com o coitado do anular, cujos ligamentos tinham sido arrebentados na queda, assim como fora sua base fraturada em três pontos.
Na hora, não percebi; mais tarde, porém, dores no braço e no antebraço indicaram outra vítima do tombo: também o úmero tinha sofrido fratura, na ânsia do corpo de evitar choque mais desagradável entre a cabeça e o chão.
Rale o joelho, as mãos, havia sangue por tudo, mas não jorrando: arranhões grandes, vermelhos.
Consegui reunir bom senso que chega para ligar para um médico, o ortopedista maratonista que me acompanha há vários anos. O melhor mesmo era seguir para o pronto-socorro e cuidar logo do prejuízo para depois ver o que poderia ser feito.
No final das contas, não houve quase nada a ser feito. A fratura no braço era “boa”, não precisava nem sequer de imobilização, haveria de colar por si provavelmente na posição correta. É ela, porém, a que mais dores provoca, pois o braço está sem forças. Consigo levantar uma xícara, mas não um prato.
O dedo, porém, era outra história. A articulação havia sido atingida, queriam operar o quanto antes, o melhor seria ali mesmo, na hora.
Calma, cocada. Cirurgia não é assim coisa que se faz a qualquer momento, sem pensar, sem refletir, apenas porque parece ser o mais indicado para o ferimento. Pode não ser o mais indicado ou o desejado pelo ferido.
Vai daí que, conversa vai, conversa vem, noves fora, optei por deixar tudo nãos da natureza. Dando-lhe alguma ajudinha, mas nada muito dramático nem drástico.
Por isso, estou com a mão parcialmente presa por uma órtese que mantém meu dedo anular direito no lugar desejado pelos médicos, sem pender loucamente mão abaixo, mas também se ter tido a articulação consertada, coisa que envolveria placa, fios de arame e outras alquimias e arquiteturas que provocariam muitas atribulação ao corpo velho e cansado.

Posso correr com a órtese, que é uma espécie de tala mais moderna, mais leve, mais elegante. Posso tomar banho com ela e tenho a mão capaz de fazer muitas coisas, assim como impossibilitada de fazer outras tantas.
Digitar com elegância, por exemplo, está fora de cogitação.
Nos primeiros dias em que tentei batucar no teclado, experimentei fazê-lo com o indicador, apontando a mão para baixo, deixando o indicador apoiado no dedão. Não havia dor, nem sempre, pelo menos, mas também não havia muita produtividade.
Eu estava catando milho, tinha de novo virado catador de milho, como vozes pouco gentis se fizeram ouvir na minha memória, na minha mente, nas imagens de tempos passados.
Catar milho, nos teclados de hoje, é ainda mais problemático por causa da alta sensibilidade das teclas. A gente batuca com o indicador na tecla certa, mas, ao mesmo tempo, de forma solerte, o resto da mão esbarra em teclas outras, provocando  erros e confusões, atrasos e demora.
A mão direita, então, é vítima ainda maior, pois carrega o artefato de plástico moldável, uma peça agora rígida em azul royal, presa à mão por simples pressão, garantida por atilhos de velcro vermelho.
Consigo agora, depois de alguns dias de experimentação, usar os dedos médios para digitar, não mais catar milho. Há sempre dores, por que o movimento dos braços aciona músculos e tendões endurecidos e amarfanhados, ainda sofrendo os efeitos do trauma ou, talvez, de alguma forma maltratados pela lesão na cabeça do úmero.
Não sei. O que sei é que estou de pé. Tenho a mão inchada, o dedo anular preso e amarrado a ele o mindinho. Há dores que vêm e vão, há dores que ficam, não saem. Não é a pior situação do mundo, mas também não é a melhor.
Não paro de correr.
O acidente foi na quinta-feira, eu adiantei o longão de sábado, pois no sábado tinha compromisso, iria ouvir a fala inspirada de Pepe Mujica, o legendário ex-presidente do Uruguai.
Pois no domingo já corri cinco quilômetros, na segunda caminhei dez quilômetros e hoje fiz um treino de onze quilômetros.
Estou um pouco abatido. Sinto cansaço.
Azar. Parafraseando o poeta, digo que ainda tenho a corrida e o sentimento do mundo.
VAMO QUE VAMO!!!


Percurso de nove de maio de 2017
11,37 quilômetros percorridos em 1h42min14

Acumulado no projeto 60M60A
1.055,16 quilômetros percorridos em 187h47min09