22.9.17

Caminhar pelas beiradas é um bom jeito de conhecer São Paulo

Hoje foi dia de encontro. Parti de madrugada para atravessar a cidade, cruzar linhas de trens e grandes avenidas, atravessar pontes, subir escadas, enfrentar pirambeiras, me esgueirar pelo trânsito infernal, me equilibrar nas calçadas traiçoeiras, tudo para me encontrar com uma turma que está caminhando num percurso que eles chamam de “pelas bordas de São Paulo”
Trata-se de um evento promovido pela Bienal de Arquitetura que está rolando na cidade (saiba mais CLICANDO AQUI). A ideia é do urbanista alemão Martin Köhler, que há oito anos vem fazendo caminhadas transversais por grandes cidades –começou em Seul, na Coréia.
Aqui em São Paulo, o rolê foi diferente: em vez de cruzar metrópole de uma ponta a outra, inventaram um trajeto por parte do contorno da cidade.
"O percurso pela geografia urbana paulistana e o registro de sua trajetória tem como objetivo desconstruir os significados atribuídos à dicotomia centro-periferia, insuficientes para descrever o espaço e sua experiência na metrópole. A caminhada oferece uma experiência de costura e articulação de agentes e práticas diversos no território. Enquanto prática política, a caminhada desvela a multiplicidade e potência da produção sociocultural ligadas ao território percorrido", teoriza Köhler, segundo material de divulgação distribuído pelo pessoal da Bienal.
A caminhada iniciou no dia 16 passado e vai até amanhã. As jornadas variam a cada dia: houve trechos de apenas sete quilômetros e outros de cerca de vinte quilômetros, devendo totalizar 120 quilômetros de caminhada.
Para me encontrar com a turma, hoje eu corri 17 quilômetros até o Jardim Damasceno, de onde sairia a penúltima perna do percurso. Com isso, sigo acrescentando quilômetros ao meu trajeto particular, que pretende totalizar neste ano distância equivalente à de sessenta maratonas.
Agora já faltam menos de quinhentos quilômetros, o que me deixa muito entusiasmado, pois crescem as chances de que eu venha efetivamente a cumprir, a vencer o desafio que coloquei para mim mesmo neste ano em que completo sessenta anos.
Os participantes da caminhada pelas bordas da cidade também estavam bastante entusiasmados com as próprias realizações, como você pode ver neste vídeo que produzi ao me encontrar com eles.



VAMO QUE VAMO!!!!

Percurso de hoje, 22 de setembro de 2017
17,03 quilômetros percorridos em 2h03min49


Acumulado no projeto 60M60A
2.036,66 quilômetros percorridos em 361h24min42


20.9.17

Dois mil quilômetros já se foram: Vamo que vamo!

Hoje passei a marca dos dois mil quilômetros percorridos ao longo deste ano em que completei sessenta anos. Meu objetivo é chegar  aos –talvez passar dos—2.532 quilômetros, que é a distância equivalente à soma de sessenta maratonas. Ao longo do ano, venho discutindo, aqui no blog, questões referentes à saúde, à qualidade de vida e à inserção social dos mais velhos.
Velhos, pelos regulamentos brasileiros e pela classificação da Organização Mundial da Saúde, são aqueles que passam dos sessenta anos (nos países desenvolvidos, a nota de corte é de sessenta e cinco anos). É um bom momento para refletir sobre o que fizemos, o que ainda queremos fazer (ou podemos), para onde vamos, afinal.
A maioria de nós, velhos, não tem condições nem chances de pensar sobre isso, não tem querer nem poder. Por falta de condições financeiras, homens e mulheres de mais de sessenta (e até antes disso) são relegados ao sofá, ao quarto dos fundos, ao abrigo –muitas vezes, ao desabrigo.
Isso, apesar de, em grande parte das famílias brasileiras e, mesmo, em bom número de cidades do país, os velhos e os recursos que recebem como aposentadoria são o sustentáculo econômico do grupo. Números: em quase um quarto dos lares brasileiros o idoso aposentado é o arrimo da família.
Ainda que a população brasileira seja jovem, a participação dos velhos no conjunto aumentou muito, mais do que o próprio crescimento populacional. Em 1960, os brasileiros éramos setenta milhões; em cinquenta anos, esse número quase triplicou, passando a 190 milhões em 2010.
A população dos velhos, por seu lado, MAIS DO QUE QUADRUPLICOU no mesmo período, passando de 3,3 milhões de maiores de sessenta anos em 1960 para 14,5 milhões ao final da primeira década deste nosso século. São consequências do desenvolvimento econômico –ainda que mal distribuído--, das melhores condições sanitárias no país, da evolução da medicina.
Nossa gente está vivendo mais e, pelo menos em um pequeno percentual, vivendo mais com saúde razoável. Somos capazes de continuar contribuindo para o desenvolvimento da sociedade, ainda que a sociedade não esteja adequadamente preparada para receber nossa contribuição.
São coisas assim que venho debatendo nestas páginas, ao longo dos quilômetros sem fim que percorro pelo mundo. Se conseguir chegar ao meu objetivo, terei batido meus recordes de volume anual. Quando comecei a correr, no século passado, ainda no vigor de meus quarenta e poucos anos, corria em média 2.400 quilômetros por ano.
Esse volume decaiu consideravelmente depois que eu passei da casa dos 50 anos, especialmente na segunda parte dessa faixa etária. Sofri mais lesões e levei mais tempo para me recuperar delas; o ritmo de recuperação dos treinos longos também aumentou.
Deixei de fazer umas quantas maratonas por ano. Para comparar: em 2007/2008, quando entrei nos 50 anos, fiz onze maratonas e provas mais longas, de até cem quilômetros, em apenas nove meses!!! Neste 2017, em que completei 60 anos, apenas pensei em fazer uma maratona, mas a ideia foi deixada de lado; afinal, tinha e tenho um objetivo maior, que é chegar a essa enorme quilometragem acumulada no ano.
A estratégia está dando certo. Não tive nenhuma lesão neste ano, nada de dores nas costas nem pernas machucadas com ites de todo o tipo; em contrapartida, levei um tombo violento, em que quebrei dois dedos em vários pontos além de quebrar também um osso do braço.
Tudo está mais ou menos consertado, tenho sequelas desses problemas todos, mas dá para correr. Tanto que, em maio/junho passado, fiz três meias maratonas em três fins de semana seguidos. Uma delas foi a Palio Del Drappo Verde, a corrida mais antiga do mundo ainda em realização –sua jornada inaugural foi em 1208 em Verona, Itália!!! (saiba mais sobre essa história CLICANDO AQUI).
Outro destaque destes primeiros dois mil quilômetros foi a CAMINHADA DA RESISTÊNCIA, que, junto com meus amigos do grupo Corredores Patriotas Contra o Golpe, organizei para marcar a luta dos democratas e patriotas contra o golpe militar de 1964. A caminhada foi um mergulho na história de São Paulo e do Brasil, uma demonstração de como o exercício pode ser alavanca para o jornalismo e para a educação, para a descoberta de amigos e de informações (saiba mais sobre aquela jornada CLICANDO AQUI).
Lembro agora apenas desses dois momentos, ainda que minha vontade fosse falar de cada uma das 197 corridas/caminhadas que fiz, em 189 dias de atividade (em alguns dias, fiz duas ou três sessões de treino). O processo foi todo muito bacana, especialmente por causa de sua participação acompanhando a jornada e pelos apoios amigos que venho recebendo, como o do pessoal da Força Dinâmica –meu treinador, Alexandre Blass, e o fisioterapeuta Marcelo Semiatzh—e do Instituto Vita.
Amigos contribuíram de várias formas. O ilustrador e corredor Jan Limpens-Doenraedt, por exemplo, gentilmente criou os cartuns que estão nesta página. Aproveitei para conversar com ele, que é austríaco, casado com uma brasileira, tem anos e dois filhos. Você pode conhecer outros trabalhos dele CLICANDO AQUI. Antes porém, confira a seguir a breve entrevista que fiz com ele:

Desde quando está no Brasil, por que resolveu viver no Brasil, o que acha de viver no Brasil?
Numa viagem visitei Brasil em 1995, conheci a minha esposa. Moramos seis anos em Viena e em 2001 nos mudamos para SP. Era onde a vida me levou, não teve motivo. Mudei a minha opinião sobre Brasil fortemente umas quatro vezes desde eu estou aqui. Então, o que concluir disso? O Brasil tem camadas muito diferentes, contrastantes e com o tempo a gente descobre uma por uma...

Como você descobriu que queria ser desenhista/ilustrador e que tinha condições para viver disso?
Quando vim [para o Brasil], ainda trabalhei na área da tecnologia, me dei razoavelmente bem com isso ainda na Áustria. Aqui foi mais difícil, mas era possível, mesmo assim: muito complicado para crescer. Comecei a ilustrar livros infanto-juvenis e quadrinhos, primeiro para um site austríaco, depois para a Folhateen, onde eu tinha ganhado um concurso. Lá na Áustria eu tinha feito parte de um grupo de teatro, filmes e clubes (para dançar) e, quando cheguei aqui, transformei parte disso em HQs. Faz uns 8 anos +/- vivo exclusivamente da ilustração.

Quando começou a correr? Por que começou a correr? O que a corrida tem de bom?
Comecei a correr faz cerca de 2 anos, depois de uma fisioterapia no Marcelo [Semiatzh, da Força Dinâmica; Jan é meu colega de treinamento. Estava ficando velho (me sentindo mais velho no mínimo, ganhando peso com dores nas costas, caindo nas escadas etc.). Correndo, mais do que recuperei a minha forma, os meus reflexos: é bom para ventilar a minha cabeça. É uma espécie de meditação para mim --eu acho, não sei, porque nunca meditei. Mas essa concentração continua em um movimento harmônico e fluido, na postura certa e na frequência certa, levam a uma certa paz e me deixam com melhor humor. Coisa necessária hoje em dia.

VAMO QUE VAMO!!!


Percurso do dia 20 de setembro de 2017
14,5 quilômetros percorridos em 2h08min34

Acumulado no projeto 60M60A

2.009,5 quilômetros percorridos em 356h45min47

15.9.17

Primeiras impressões sobre o Everun Ride 9, calçado de corrida da Saucony que chega ao Brasil

Escolher tênis, examinar calçados de corrida, testá-los, compará-los –eis algumas das obsessões de quem gosta de correr; ou pelo menos, obsessão deste blogueiro.
Desde que comecei a correr sou vidrado em guias de tênis e outros serviços de análises comparativas desses calçados que, supostamente, ajudam o atleta a desempenhar bem seu hobby.
Estudos científicos demonstram que o tipo de calçado –desenhado para quem pisa com o pé mais inclinado para dentro ou para fora, por exemplo)—pouco ou nada tem a ver com a proteção contra lesão.
Também não afetam a performance. As pesquisas independentes concluem, de modo geral, que o bom tênis é aquele que cabe, em que o corredor se sinta confortável e protegido.
Exatamente por causa da busca de conforto em primeiro lugar é que nunca me dei bem com os tênis da Saucony, apesar de sempre ter visto resenhas elogiosas daqueles calçados e de, em geral, gostar do design deles e das cores escolhidas.


Conheci os calçados da empresa no início deste século, em viagem a trabalho aos Estados Unidos, aproveitada para participar de alguma corrida legal da qual nem me lembro direito.
Já tinha lido bastante sobre a empresa, cujas origens remontam ao final do século 19 –a primeira fábrica da companhia começou a funcionar na Pensilvânia em 1898.
Depois de ler tantas resenhas, cheguei seco para experimentar os modelos supostamente indicados para meu tipo de pé e de passada.
Fracasso total!
Os calçados eram lindos, de alta tecnologia para a época (estamos falando de mais de 15 anos atrás), mas finos e baixos, apertando demais na largura e no peito do pé.
Não tinha jeito. Ao longo dos anos, vez que outra experimentei algum novo modelo da Saucony, com a mesma decepção. Parece que aquele design estava inoculado nos projetos da empresa de forma permanente –sensação semelhante à que tenho em relação aos calçados da Adidas, que costuma achar lindos, mas não entram no meu pé...
Bueno, agora os calçados da Saucony passam a ser vendidos oficialmente no Brasil. No lançamento, a BR Sports traz sete modelos de tênis de corrida, com preços variando de R$ 599 a R$ 999.
Eu testei um dos modelos da faixa de R$ 599, o Everun Ride 9, que se revelou uma grata surpresa.
A primeira surpresa é que meu pé entrou no tênis sem sofrimento, nada de apertume no dedo mínimo. Também estava normal na altura. No comprimento, poderia estar mais confortável no pé esquerdo, que é um tantinho maior do que o direito, mas não chegava a incomodar. Em resumo, podiam ser calçados e usados pelo menos em uma caminhada.
Foi o que fiz no primeiro dia de teste: uma caminhada de uns dez quilômetros, sem usar nenhuma das órteses que tenho (são duas, que uso alternadamente: uma palmilha de pé inteiro e outra que é apenas um ponto metatarsial).
O calçado se saiu bem. A primeira impressão em relação ao comprimento se confirmou: ele de fato era o tamanho que costumo usar, mas, em geral, os calçados das marcas que uso ficam um pouquinho mais folgados na ponta do pé esquerdo. Mesmo assim, não posso dizer que estava apertado nem mesmo que estava justo; a folga é um pouco menor do que a apresentada nos meus tênis de costume.
Desde então, já corri e caminhei com ele cerca de cem quilômetros. Na maior parte dos treinos, usei a palmilha de silicone de pé inteiro e mesmo assim não ficou apertado. Na altura também não deu a folga de que gosto, ficou mais justo, mas aguentou bem a palmilha e o pé sem provocar desconforto, mesmo em treinos que duraram mais de duas horas em tempo quente.
Do ponto de vista de amortecimento e de altura do solado, o Ride 9 é bastante bom, não deixa nada a desejar em relação aos modelos que costumo usar. A gente sente o amortecimento, mas não afunda o pé na borracha, há uma boa estrutura de sustentação mesmo para corredores mais pesados, como eu.
A característica do Ride 9 de que mais gostei foi o  amortecimento especial na parte da frente do pé, algo que aumenta bastante o conforto da passada. Esse é um recurso antigo (um Dyad 4, da Brooks, que comprei em 2007, já apresentava essa ótima particularidade), mas que apenas mais recentemente tem se espalhado por um maior número de modelos, usado mais amplamente por diversas marcas.
No caso do Ride 9, é muito bem usado.
Em relação à qualidade dos componentes, até agora não tenho do que reclamar. A sola não mostra desgaste significativo, e o cabedal mantém aparência de solidez.


Gostei da cor, um azul de tom afirmativo. Gosto de calçados espalhafatosos, coisa que o Ride 9 não é, mas também me dou bem com os mais sóbrios, desde que as cores sejam em tom forte –só não aprecio o pastel, a cor-de-burro-quando-foge...
Resumindo: é um calçado de boa qualidade, que deve agradar mesmo a corredores mais pesados. Quem tem pé mais largo e/ou alto talvez prefira usar tamanho um número maior do que o costumeiro; para mim, o 11,5 funcionou bem, como normalmente acontece. Não deu toda a folga que prefiro, mas não ficou apertado.
Já o preço é mais complicado.
Os preços de tênis de corrida estão altos no Brasil, mas a Saucony chega com modelos superapreciados, na minha avaliação.
Preço inicial de R$ 599, para uma marca que é pouco conhecida no mercado brasileiro, parece algo exagerado. Ainda mais que calçados de qualidade já comprovada e com longo tempo de mercado têm preço de lista mais baixo (o Cumulus 19, da Asics, por exemplo, é encontrado por cem reais a menos).
Nos Estados Unidos, Ride 9 e Cumulus têm o mesmo preço de lista, US$ 120. Agora, a Saucony está com promoção oficial em seu dite oferecendo o calçado por US$ 90 (R$ 281,50 na hora em que escrevo este texto)
Fica difícil entender como a empresa espera conquistar adeptos com essa política de preço, mas imagino que eles tenham feito suas pesquisas de mercado. E, claro, trabalham com o fascínio que a marca pode ter, mas não sendo tão conhecida por estas plagas.
As corridas e caminhadas que fiz com Ride 9 integraram o meu esforço para totalizar neste ano percurso equivalente ao de sessenta maratonas, uma homenagem aos meus sessenta anos.
Depois de umas balançadas e quedas efetivas, estou hoje quase dentro do cronograma que tracei no início do ano. Com 1.962,71 quilômetros percorridos, ainda tem chão até chegar aos 2.532 quilômetros que são minha meta. Se não me machucar, devo conseguir.
Conto com sua torcida e participação. Já completei o equivalente a mais de 46 maratonas.
Quando chegar perto de números “redondos” ou cheios, 50 maratonas, 55 maratonas, vou programar treinos coletivos. Desde já, você está convidado a participar das aventuras deste velhinho corredor.


11.9.17

Em Floripa, maratonistas cruzam juntas o portal do era uma vez

Acho que já contei para você, mas não custa repetir: eu adoro correr maratonas. A maratona muda a gente, a gente muda a maratona, há uma seguição de dores e prazeres, de orgulho e vergonha, de depressão funda e exultação incontível; principalmente, de descobertas, desenredos.
Gosto de falar de maratonas, de contar histórias de maratonas e de ouvir histórias de maratonas. Por isso mesmo, adorei quando li nas redes sociais um breve relato das aventuras de uma jovem amiga minha, a Danielle Barros, que viveu uma epopeia na sua terceira investida no perigoso, dramático e venturoso reino das maratonas.
Conheço Daniella há pouco mais de um ano. Ela foi uma das participantes em treinos que realizei durante a jornada CORRIDA POR MANOEL (saiba mais clicando aqui). Depois, passou a integrar o grupo que criamos para realizar corridas e treinos com conteúdo, a equipe CORREDORES PATRIOTAS CONTRA O GOLPE.
Dani e Zita Penna vêm treinando juntas há algum tempo. Aliás, a Zita, que é nutricionista e descobriu as corridas há cerca de oito anos, também participou do primeiro evento da turma dos Corredores Patriotas (leia aqui).
Pelas redes sociais, eu vinha acompanhando os treinos delas. Volta e meia, a Daniella publicava uma foto das duas, com breve legenda. Algo como “hoje foram 25 km” ou “30 km pela cidade”.



O grande dia seria o último domingo de agosto, na capital da Santa e Bela Catarina. Antes disso, os treinos das duas renderam uma bela história contada pela Zita como parte de um curso de contadores de histórias –a Danielle é atriz e contadora de histórias, integra a trupe Meninas do Conto. O resultado está no vídeo abaixo, publicado com a devida autorização de Zita.


Como o que nos encaminhamos sem mais delongas para o texto de Danielle, a quem agradeço pela colaboração.



CAMINHOS DE ENCONTRO
“Quando decidimos fazer outra Maratona nós sabíamos que não seria fácil. Nunca é, os treinos são longos e cansativos.
Mas essa preparação teve algo de especial, como se o mistério e prazer de estarmos vivas fosse uma força que nos acordava todo domingo de madrugada dizendo: ”Acorda e vá percorrer teu caminho de encontro”.
Um encontro com nós mesmas.
E lá íamos nós. Às vezes nos preocupávamos com o relógio e velocidade, mas a maioria do tempo estávamos ocupadas em observar a cidade, que mesmo cinza se mostra bela e generosa se soubermos olhar.
Parávamos para ver o sol nascer ou admirar uma plantinha que bravamente rompia o asfalto em busca de vida. Houve um treino que ficamos paradas uns dez minutos no final da ponte da Cidade Universitária admirando três belas e velhas árvores; pegamos emprestada um pouco de sua generosidade e seguimos quilômetros em frente.
Sempre, quando faltavam dois quilômetros para acabar o treino de corrida, eu contava uma história para Zita, e nós corríamos acompanhadas das personagens dos contos, que nos davam mais força para seguir.
Nós amanhecíamos e sonhávamos no asfalto.
Finalmente chegou o grande dia, era o momento de consagrar e finalizar nossa jornada.
Larguei na frente, corri mais rápido do que deveria e, lá pelo quilometro 29 ou 30 (não me lembro porque já nem estava mais prestando atenção nisso), uma dor insuportável quase paralisou minhas pernas.
Eu olhava para o Mar que me acompanhou todo o trajeto e pedia para que Iemanjá me ajudasse, pensava nos meus preciosos amigos e família, e em alguns pacientes que atendo que se mostram tão fortes. Sentia que todos eles me acompanhavam. Lembrava dos contos que contava para Zita, e eles eram meus aliados.
A dor aumentava ao mesmo tempo que eu sentia um amor imenso e confortante como um abraço.
Encontrei no percurso os anjos da minha equipe (outros corredores que faziam uma distância mais curta), que me ajudaram muito. O Giuseppi Soares me encontrou em prantos, e eu dizia que estava bem, mas com muitas dores.
Logo a notícia chegou ao meu técnico, Luiz Fernando Bernardi, e aí senti a coisa mais linda que eu poderia sentir naquele momento, eu senti a essência da palavra amigo e parceria.
Meu técnico pediu que um corredor e amigo fosse ao meu encontro, e logo vi o Ocimar com um spray para dor dizendo “Vamos, Dani!”,  e aí eu corri, eu corri com uma força que não era minha. 
No quilômetro 32, estava toda minha equipe torcendo, incluído a linda Bombom, que me incentivava tanto que parecia me emprestar suas pernas para eu terminar de correr.
Silvia Vinhal, mesmo depois de ter corrido 21 km, disse que me acompanharia nos dez quilômetros finais. Como ela foi importante pra mim! Conversamos, corremos e trocamos segredos de vida. Uma hora minha perna paralisou de novo e tive que andar, e ela estava lá andando comigo.
Quando estava retornando para o término da maratona, vi a Zita que vinha correndo com o Ocimar, outro lindo que se prontificou a fazer os últimos 10 km com ela. Então eu disse para Silvinha: “Vamos esperar a Zita!”
A Silvinha dizia: “Espera por ela na chegada, Dani, você não pode parar, continua”
Finalmente no quilômetro 41 encontrei a Zita com o Ocimar e o Alexandre Amaral Piazza, que também tinha vindo ajudar. O Ocimar me disse: “Você acredita que a Zita estava contando história pra mim”.
Fiquei tão feliz e disse; “Então eu também vou contar uma”, e eu contei uma das minhas histórias prediletas, e foi assim que nos aproximamos do pórtico de chegada.
Demos as mãos, nossos anjos nos deixaram, e atravessamos juntas pelo portal do amor, da superação, o portal do era uma vez.
E, como a vida imita a arte, nossa jornada só podia terminar como começou: Juntas!!!



7.9.17

Sete de Setembro é dia de correr e marchar pela Independência

Fazia muito tempo que eu não participava de uma corrida aqui em São Paulo. Pois hoje lavei a égua, como se diz lá no Rio Grande do Sul: estive entre os cerca de cinco mil corredores que transformaram em uma grande festa o Troféu da Independência, prova realizada no bairro do Ipiranga, pertinho do local onde, em 1822, Dom Pedro lançou o grito, a palavra de ordem que ainda hoje ecoa em nossos corações e mentes: “Independência ou morte!”.
Para mim, foi uma corrida alegre, divertida. Encontrei muitos amigos da antiga e tive a satisfação de conversar com leitores aqui do blog. Acima de tudo, porém, foi um momento de reflexão sobre a situação que vive nosso país, jogado na escravidão pelo grupo de golpistas que assaltaram o poder, sequestraram a democracia e venderam as riquezas nacionais.
Uma situação semelhante à que vivia o Brasil Colônia, oprimido pelo império da época. Talvez pior, pois hoje os brasileiros temos memória de tempos de liberdade e de democracia, tempos de orgulho nacional e de construção de um país que caminhava para transformar em verdade verdadeira as palavras do Hino da Independência: “Do universo entre as nações resplandece a do Brasil”.
Os golpistas do Planalto e seus asseclas e acólitos espalhados por governos outros de nossa pátria se esmeram em tentar destruir não apenas as conquistas e realizações de nosso povo mas também os símbolos de luta e as casas de devoção ao país.
Exemplo disto é o abandono em que se encontra o Museu do Ipiranga, situação denunciada por um grupo de corredores que participaram da prova de hoje. Integrantes da turma “Amigos do Parque da Independência”, eles carregavam cartazes com imagem do museu e os dizeres: “Socorro, não me abandonem!”.

Cheguei a fazer uma breve entrevista com um dos integrantes do grupo, mas, por incompetência minha ao operar a gravação, o registro foi perdido. Mas não há de ser nada, faço uso das palavras do historiador Laurentino Gomes para caracterizar a situação do Museu da Independência, fechado para reformas cuja conclusão é prometida para meados da próxima década:
“O edifício, que acaba de comemorar 120 anos de inauguração, está caindo aos pedaços. No salão nobre, cuja parede principal ostenta o quadro Independência ou Morte, do paraibano Pedro Américo, o teto descolou-se e ameaçava cair sobre os visitantes. O forro de salas vizinhas está prestes a desabar por causa da infiltração de água da chuva. A pintura de vários ambientes se encontra rachada e apresenta mofo. As portas, com fechaduras antigas, emperram. Manchas de sujeira cobrem tanto um busto do marechal Floriano Peixoto, o segundo presidente da República, no subsolo, como um espelho que pertenceu à marquesa de Santos, amante do imperador Pedro I, em uma sala da torre leste do 1º andar. Uma carruagem do século XIX, no térreo, está com a forração rasgada em vários pontos. Na fachada do edifício, trechos sem reboco deixam os tijolos à mostra. Na parte dos fundos, onde bate menos sol, a tinta descascou e as paredes foram tomadas pelo musgo. O estado de abandono é uma ameaça ao precioso acervo, composto de 150 mil peças, uma biblioteca com mais de 100 mil volumes e um centro de documentação com 40 mil papéis e manuscritos.” (texto publicado em Veja SP).
O fato é que, segundo me contaram os corredores-manifestantes, pouco se sabe, oficialmente, sobre as supostas reformas. Texto publicado na Folha no ano passado diz que, até então, tinham sido realizados apenas trabalhos de estaqueamento para evitar que as pares ruíssem. Os custos, estimados inicialmente em R$ 21 milhões, já tinham saltado para R$ 100 milhões, mas nada de as verbas serem liberadas...
Por tudo isso, é elogiável a ação dos corredores que aproveitaram o Troféu da Independência para denunciar o descaso com que os governantes tratam nossos símbolos, a própria história da Pátria.
Falando nisso, recebi pelas redes sociais um curto vídeo comemorativo ao Sete de Setembro, produzido pelo Partido Comunista do Brasil. Como achei bacaninha, fica AQUI olink para você também assistir ao filmezinho.
Registro também a realização, na manhã de hoje, do GRITO DOS EXCLUÍDOS, manifestação de âmbito nacional; em São Paulo, a  marcha reuniu cerca de 10 mil pessoas. 

Foto: Jornalistas Livres

Com o lema “por direito e democracia, a luta é todo o dia”, a manifestação seguiu da avenida paulista até o Monumento às Bandeiras, na região do Ibirapuera.
Em entrevista aos Jornalistas Livres, Raimundo Bonfim, coordenador da Central de Movimentos Populares, que realiza a manifestação, alerta: “A atual situação de desemprego, miséria e exclusão social é mais grave do que em 1994, quando foi realizada a primeira edição do Grito dos Excluídos”.
E assim concluo a edição de hoje, mais uma caminhada de meu percurso que mira totalizar, ao longo deste ano, distância equivalente à de sessenta maratonas. Foi a forma que encontrei para festejar com você a chega de meus sessenta anos, momento em que oficialmente me integro à comunidade de velhos do Brasil.
O projeto está andando bem. Se tudo correr de acordo com o esperado, amanhã totalizo neste ano distância equivalente à de 45 maratonas (1.899 quilômetros). Apesar de dores eventuais, dedos quebrados e outros perrengues de menor monta, estou bem e com saúde. Sigo lento, mas sigo.

VAMO QUE VAMO!!!

Percurso de Sete de Setembro de 2017



16,13 km percorridos em 2h47min37

Percurso acumulado no projeto 60M60A

1.889,42 km percorridos em 336h39min11





22.8.17

Arte na favela, sapatos sem dono e homem dos panos em 20 km de rolê na Paulicéia sem chuva

“Ei, ei, ei, oi aí, ô Barba! Que tá fazendo? Tá tirando foto do quê?
A voz marrenta e não sem um tom de ameaça vinha de um rosto protegido por capuz de um casaco de moletom que um dia fora cor de vinho, agora amarronzado pelo tempo e a sujeira. O dono da voz era um sujeito magro, pelo que entrevi, e estava com um parceiro, mais forte, vestido com roupas escuras. Com as mãos na cintura, deram um ou dois passos em minha direção, mas pararam enquanto eu respondia.
Eu sabia que entrar na favela envolvia algum risco, ainda mais correndo, mas, quando vi, já estava lá no meião. Eu sabia que correr com o celular na mão era arriscado, mas tinha visto o que me parecia ser uma foto imperdível. Cem metros antes, eu não sabia que aquilo ali era uma favela. Nem que aquela podia ser minha última foto (não foi, claro, menos drama, por favor).
Corria pela rua na periferia paulista. Começara larga, mas fora se estreitando, assim como as frentes das casas, que antes tinham porta e janela, às vezes duas janelas, agora só uma portinhola. Rodando na calçada –seguir pela rua estreita seria suicídio, considerando a velocidade com que os carros chispavam por ali--, quase atropelei uma senhora que abria a porta do seu casebre (de alvenaria, mas caindo aos pedaços).
Tudo cinza, apertado, feio, fedido.
Por isso me entusiasmei quando vi, mais à frente, o que parecia um sobrado verde; na frente dele, um amarelo, cores no cinza, e ainda com roupas estendidas em varais, imagem clássica nas ruas italianas, aqui em São Paulo símbolo de apertume e pobreza. Mas com seu apelo visual.
Pensando na foto, já peguei o celular na mão, pensando em deixar a câmera preparada. Era só um clique e seguir, sem perder meu tempo de corrida: hoje eu estava correndo bastante, cumprindo blocos de 2.700 metros corridos por 30 metros de caminhada, uma combinação que não fazia havia muito tempo.
Então percebi que tinha entrado numa favela. Não há perigo, mas há. Do lado direito da rua, em frente a um barraco que fazia às vezes de bar, alguns homens estavam parados, conversando, olhando o movimento. Cachorros em volta deles, no meio da rua, à minha frente, por todo o lado.
Resolvi parar até o trote, pensando em seguir a passo pelo menos até deixar para trás a cachorrada, que talvez não estivesse acostumada com alguém correndo entre eles. Também decidi seguir com o celular em mãos, não tinha mais mesmo o que fazer àquela altura, mas decidi não tirar foto de nada, pelo menos não depois de passar a homarada.
Os caras me olharam de revesgueio, eu levantei o braço em cumprimento, nada, nenhum problema. Os cachorros me ignoraram solenemente.
Foi aí que eu vi aquela coisa sensacional, uma verdadeira obra de arte no coração da favela. Não havia opção, tinha de parar e fotografar o Mercadinho da Paz, que compensa seu espaço minguado colocando na rua mesas e banquetas para os convivas.

Elas é que são o máximo. Os banquinhos são suportados por estrutura em formato de violão, e as mesas são enormes pandeiros, também eles suportados por violões esculpidos com arte em madeira.
“Tô fotografando o bar, aqui!”, gritei de volta para a dupla que me inquiria e mostrei o cenário de pura arte na rua.
“Não vai fazer foto da favela!”, advertiu o voz marrenta vinda do capuz amarronzado. Não fizeram ameaça nem chegaram perto, mas não precisava.
“Sem problema”, disse eu, correndo na direção deles, que me avaliavam. “Eu corro por tudo e tiro fotos, não tem quaisquaisquais”, expliquei ao passar, imaginando que fossem me parar, querer ver as imagens, sei lá. Na favela todo mundo é trabalhador, mas também tem a turma que atua em serviços alternativos...
Ninguém falou nada, eu segui em frente, nem entrei no mercadinho para tentar descobrir o autor dos artísticos móveis. Melhor não. Alguém gritou na minha direção: “Vai, Bin Laden!” (é uma das coisas que ouço, assim como Rei Leão, Selvagem de Bornéu e outras tantas).  Ergui os braços, acenei os dedões em sinal de positivo e fui embora.
Quer dizer: imaginava que estava indo embora. A rua central da favela tem só dois quarteirões, e calculei que poderia atravessar o terreno e sair em local mais conhecido, de modo que pudesse seguir em frente e construir outro caminho menos conturbado.
Nananina. Caí numa rua sem saída, com cerca de ferro e muro. Não havia alternativa senão voltar pelo mesmo caminho, cruzar de novo pelos donos da favela. Será que eles iriam pensar que era provocação?
Cruzei pelos dois valentões de novo, mas nem deram bola, já entretidos com qualquer outra coisa. E eu já estava parça dos moradores. Um gordão, saindo de um barraco, saudou o exercício (“Bom para a saúde”, disse, ou qualquer coisa assim), eu o chamei para correr junto. Todo mundo de bom humor, alguma criança ao longe gritou “Papai Noel” para minhas barbas brancas, e as tensões se esfarelaram nas minhas passadas.

De volta às ruas cinzas, apertadas, movimentadas. Já tinha, àquela altura, percorrido quase doze quilômetros, estava feliz da vida com meu rolê no primeiro dia de estiagem depois de mais de uma semana de chuva fria, incessante, molhada, chatonilda na cidade de São Paulo.
Com todos os problemas que enfrentei neste ano, tombo no asfalto, dedo quebrado, costas coloridas, joelho esfubecado, articulações enferrujadas e inflamações várias, nunca tinha ficado tanto tempo sem correr como nestes últimos dez dias.
Comecei a ficar preocupado, até, porque preciso contabilizar quilômetros em penca para conseguir chegar ao final do ano cumprindo galhardamente distância total equivalente à de sessenta maratonas somadas –esse é o meu desafio e meu presente de aniversário neste ano em que completei sessenta anos e entrei oficialmente na velhice. Velho, corro como nunca corri na vida.
Com o frio e o vento e a chuva fria, manhã depois de manhã, tarde depois de tarde, fui tomando gosto pelas cobertas, o chocolate quente, maratonas diferentes, domésticas, assistindo a séries cinematográficas... Ao mesmo tempo, me atazanava: Será que, quando chegar a hora, vou saber correr de novo?
Pois olha, sei.
Me desentrevei daquelas ruelas e, num pedaço de concreto, vi perdidos, abandonados, um pé de sandália e um pé de tênis, engruvinhados, fazendo parzinho. Eram de criança, parecia, e agora estavam ali, abandonados, solitários, perdidos, um estranho casal no chão de São Paulo.

O tempo passava e os quilômetros também, já ia me cansando, mas ainda estava longe do caminho de volta e do retorno que eu queria, passando por uma figura que me parecera simpática, interessante, alguém com quem eu queria falar, queria que me contasse uma história.
“Sou o homem dos panos”, ele tinha me dito horas antes, quando eu desci para o outro lado da Marginal. Encostada numa árvore de canteiro de avenida, havia uma bicicleta, meio caída, meio apoiada, cercada de panos, papéis, sacos, sacolas. Imagem curiosa, me pareceu, e fotografei na corrida, imaginando que talvez o dono não gostasse...


Era o senhor Vantuir, que respondeu a meu “bom dia!” perguntando qual que era a história, e eu expliquei “nada não, corro por aí e faço fotos”. “Beleza!”, ele disse, e eu fui me embora.
Mas achava que ele tinha mais a me contar, falar do trabalho dele. E voltei pelo mesmo caminho para tentar uma entrevista com ele. “Outro dia”, prometeu, mas não se furtou a conversar rapidinho, falando do seu trabalho e resumindo a crise de nosso país:
“É tipo vender o almoço para pagar a janta.”

Dei adeus e vim me embora, agora sim, quase embicando no caminho das pedras, rumo de volta à casa. Não sem antes testemunhar mais um dos perrengues diários de nossa cidade, abandona pela prefeitura: semáforos fora do ar, piscando direto no amarelo. Ainda bem que agentes da CET já tinham chegado para controlar o tráfego, se não ia ser mais complicado fazer a travessia.


Na subida da Sumaré, cansei. Em vez de 300 metros caminhando, caminhei um quilômetro inteiro. Mas depois voltei a correr. Quando dei de conta, meu rolezinho no primeiro dia de estiagem chegava a vinte quilômetros.
Faço mais um para completar meia maratona, só para cantar marra?
Não, deixa prá lá. Amanhã tem mais.

VAMO QUE VAMO!!!


Percurso do dia 22 de agosto de 2017
20,11 quilômetros percorridos em 2h53min25

Acumulado no projeto 60M60A
1.807,56 quilômetros percorridos em 318h09min33



15.8.17

Combate a “pipocas” é responsabilidade das organizadoras de corrida

Empresas organizadoras de corridas estão na ofensiva contra a participação de atletas não inscritos (e não pagantes), os chamados “pipocas”, nos eventos de rua. Nesse esforço, buscam apoio dos corredores pagantes, como se fossem todos –organizadores e corredores—da mesma turma, do mesmo time, contra os corredores ditos “bandidos”.
Por volta da última São Silvestre, a realizadora da prova chamou uma reunião com jornalistas, blogueiros e outros “formadores de opinião” para discutir a questão. 
Queria, segundo o convite que recebi e não aceitei, "buscar caminhos para uma campanha que visa diminuir esse péssimo hábito que vai contra a proposta de cidadania e respeito para com o próximo".
Mais recentemente, um evento plantou cartazes ao longo do percurso da prova conclamando os participantes a dizerem “não” aos “pipocas” nas corridas. Criaram até uma hashtag, #diganãoaospipocas.
É claro, óbvio, evidente e cristalino que participar sem pagar de um evento pago é errado, irregular e talvez até configure algum tipo de infração passível de punição legal. Não se entra no cinema sem pagar, não se vai ao futebol sem comprar ingresso, festas e bares exigem pagamento de quem deseja participar; com as corridas de rua é a mesma coisa.
Por outro lado, nenhum dono ou administrador de clube fica pedindo a seus clientes que fiscalizem o vizinho de poltrona, verifiquem se ele pagou ingresso e se tem o comprovante do pagamento.
É claro, óbvio, evidente e cristalino que essa fiscalização é responsabilidade exclusiva do dono ou administrador do evento, que precisa (ou deveria) garantir a seus clientes pagantes as melhores condições possíveis de participar do evento.
Algumas empresas organizadoras de corrida parecem não querer assumir essa responsabilidade, pedindo a seus clientes que exerçam funções de bedel de corredor. Conclamam seus amigos da imprensa e de blogs para lhes darem conselhos, numa parceria espúria –afinal, a imprensa deveria guardar prudente e crítica distância daquilo que cobre.
Fazem isso depois de, não poucas vezes, terem colocado nas costas dos “pipocas” a responsabilidade por falhas no serviço que deveriam oferecer. Faltou água? Culpa do “pipoca”. Houve engarrafamento? Culpa do “pipoca”. E assim por diante.
Ao mesmo tempo, não poucas organizadoras de provas se gabam da quantidade de atletas que participam de seus eventos; provavelmente (com certeza, mas escrevo provavelmente para dar a elas o benefício da dúvida), esgrimem essa quantidade nas negociações de contratos com patrocinadores, apoiadores e divulgadores. Quantidade que é anabolizada, não raro, pela presença dos tais “pipocas” --neste caso, eles prestam um serviço à organizadora da prova.
Na minha experiência como participante de corridas de rua, a falta de água a intervalos adequados (ou, pelo menos, nos locais prometidos pela organizadora) é o mais grave problema que a gente enfrenta. E é a falha que mais amiudemente é vinculada à presença de corredores não inscritos.
Isso é uma questão que deve ser tratada pela empresa que organiza a corrida. Ela é responsável por garantir a seus clientes pagantes —nós—condições adequadas e saudáveis de participação.
Como ela vai cumprir sua função é problema dela. Nós, corredores pagantes, cumprimos com nossas obrigações. Ela deve fazer a parte dela sem vir com desculpinhas disso aqui ou daquilo lá, que organizar provas é muito complicado ou muito caro, que ela não tem lucro ou que os “pipocas” pipocaram em excesso.
Nós somos clientes –não parceiros nem amiguinhos nem coleguinhas-- e devemos ser tratados –bem tratados-- como clientes. Isso inclui não ter de ouvir chorumelas sobre as dificuldades vividas pela empresa para montar com carinho uma prova bacana para a turma se divertir e outras patacoadas que algumas organizadoras falam por aí. Se não fosse para ganhar dinheiro, para ter lucro, essas empresas não estariam organizando corridas.
Se fosse uma ação entre amigos, seria diferente. Mas não me parece que corridas que reúnem alguns milhares de participantes e cobrem algumas centenas de reais pela inscrição sejam ação entre amigos.
Aliás, falando da cobrança, surgiu outra prática que, se não for ilegal, com certeza atenta contra o espírito da lei que instituiu a meia entrada para os maiores de sessenta anos.
As provas definem um preço de inscrição lá nas alturas, R$ 240 para uma meia maratona, por exemplo. Esse é o preço oficial, o preço “cheio”, mas a organização dá descontos conforme o período da compra. Quanto mais antecipada a inscrição, mais barato é.
Isso é uma prática normal, aqui e no exterior. É uma maneira de a organização fazer frente a gastos e ganhar melhores condições para planejar o evento. Os descontos são tão atraentes que –imagino—algumas provas ficam lotadas antes de chegar o período de cobrança do preço cheio.
O que não me parece normal é que os velhinhos não merecem essa atenção e gentileza da prova. Pagam meia, sim, mas em relação ao valor “oficial”, mesmo que façam sua inscrição dois ou três meses antes da corrida.
Não sou advogado e, como disse antes, pode ser que essa prática seja absolutamente legal; mas também é absolutamente contrária ao espírito da lei de desconto, que objetiva dar aos mais velhos melhores condições de participação nas diversas atividades sociais.
No cinema, por exemplo, esse espírito é respeitado. Vários circuitos exibidores cobram ingresso mais barato em um dia da semana, segunda ou terça é o mais comum, e o preço pago pelos maiores de sessenta anos é a metade do preço do ingresso do dia. Isso acontece mesmo em sessões em que o valor do ingresso é subsidiado.

Enfim, o que eu tenho a dizer é que, como corredor e como cliente de organizadoras de corridas de rua, espero que essas empresas cumpram seu dever e assumam suas responsabilidades sem jogar em terceiros culpa por suas eventuais falhas nem pedir que o corredor vire polícia de seus colegas corredores. E espero que essas empresas respeitem os direitos de todo os corredores, inclusive os atletas mais velhos.