18.7.17

Inferno, areão ardente e paixão na mais antiga corrida do mundo

Só em Paris percebi quão terrível e aterrorizante pareceu o Inferno para o poeta Dante Alighieri. As paredes de uma estação de trem século dezenove transformada em sofisticado museu exibem a imagem do delírio dantesco.
Data de 1850 a pintura de William Bouguereau que retrata a passagem de Dante pelo Reino das Trevas.
Assustado, talvez enojado, o poeta italiano (de barrete vermelho na imagem) busca proteção e arrimo no seu guia, Virgílio, enquanto arrisca olhar para a terrível cena, que ele mesmo descreve com propriedade em sua “Divina Comédia”, dizendo nunca na história da humanidade, nem Tebas nem em Tróia,  terem sido vistas...

“...fúrias em alguém tão cruas

contra animais e mesmo gente humana,

como em duas sombras vi, pálidas, nuas,

perseguindo-se, com o estardalhaço

de porcos soltos das pocilgas suas.

Uma alcançou Capocchio, e no cachaço

agarrou-o e, em seguida, assim o arrastando,

fez-lhe o ventre coçar no solo crasso.”

Ao fundo, monstros de todos os coturnos, diabinhos voando para lá e cá, almas penadas de estelionatários e falsários, rufiões, aduladores, hipócritas, ladrões e aduladores.
Era o oitavo círculo do Inferno; antes dele, no sétimo, onde são punidos os que pecaram por violência contra si mesmos, contra os outros e contra Deus, Dante vislumbrou ao longe coisa terrena que nos interessa a todos: uma corrida de rua.
A tal corrida já era velha de quase cem anos quando entrou para a história nos versos da “Divina Comédia”. Por artes da burocracia e do engenho italiano, seguiu por séculos afora até os nossos dias. No último quatro de junho, tive o prazer e a honra de participar, nos arrabaldes de Verona, da mais antiga corrida do mundo ainda em realização. É essa a história que conto a seguir.


A mais antiga 

corrida do mundo


Corrida é coisa dos infernos.

Afirmo sem pejo, não por motivo de fé religiosa, crença esotérica ou convicção profunda. Tenho provas, documentos, depoimentos registrados datados de quase mil anos. Está tudo por escrito.
As testemunhas são nada menos que Dante Alighieri, florentino até hoje considerado o poeta-mor em língua italiana, e o não menos artista das letras Virgílio, que nos deu o épico “Eneida”, a poesia completa da história da fundação de Roma.
Se já não bastassem declarações de gente assim gabaritada, há ainda a palavra de um condenado à danação eterna, o filósofo e líder político de Florença Brunetto Latini, que foi tutor de Dante, espécie de pai adotivo do autor de “A Divina Comédia”.
Para que não restem dúvidas sobre a veracidade dos fatos, eis a história como Dante a registrou na sua obra máxima.
Quando já passava dos trinta anos, por volta do que era naquela época a meia-idade, Dante estava meio perdido na vida, buscando o sentido da própria existência e as razões do mundo. Enfrentava turbilhão de emoções e sentimentos, sentia-se oprimido por dúvidas cruéis: estava em uma “selva selvagem” –expressão que usou para descrever as sensações que vivia então.
Pois foi aí que lhe apareceu o poeta Virgílio, assumindo o posto de guardião e guia de Dante no outro mundo, pelas profundezas do Inferno e o infinito de expectativas do Purgatório –nos caminhos do Céu, Dante teria outros orientadores.
O relato da viagem monumental se transformou na obra máxima de Dante –“A Divina Comédia”. Nela ficou o registro: na visita ao Inferno, o poeta viu ao longe corredores participando de uma famosa prova dos tempos medievais.
Para ser mais preciso, a visão se deu no sétimo círculo do Inferno, andar destinado à punição dos que em vida pecaram por violência e bestialidade --assaltantes, assassinos, suicidas, sodomitas, tiranos e blasfemos ali pagam suas penas caminhando, deitando ou ficando eternamente sentados em areão ardente, sob chuva de chispas de fogo.

Conduzido por Virgílio, Dante vê o sofrimento das almas danadas e, em meio àquela confusão de gritos de dor e turvas imagens, reconhece enfim alguém que lhe foi próximo: ninguém menos que Brunetto, seu antigo mestre entre os viventes.
Os dois batem um papo, lembram antigos amigos e inimigos na vida florentina, falam de traições e perfídias e, quando a conversa já se encaminha para o final, Brunetto olha para um lado e vê ao longe outra poeira que se levanta no areão ardente.
O registro está no final do décimo quinto canto, a partir da linha 115, quando o mestre de Dante vai se despedindo (a tradução para o português é de Italo Eugenio Mauro na ótima versão bilíngue publicada pela editora 34):

“Mais eu diria, mas o andar e o sermão

não podem se alongar, porque o começo

vejo de outra poeira no areão:

gente vem lá, à qual não tenho acesso.

Que meu `Tesouro` para mim tuteles,

no qual ainda eu vivo, e mais não peço.”

Ao que Dante assume a narrativa, completando o relato da visão que ambos tiveram:

“Então voltou-se, e um pareceu daqueles

que correm em Verona o pano verde

pela campanha, e pareceu ser, deles,

o tal que vence, e não o que perde.”

Dante e o trecho da "Divina Comédia" que cita a corrida do pano verde


Historiadores do mundo das corridas e especialistas na interpretação de “A Divina Comédia” não têm dúvidas de que o poeta ali se referia a uma competição já centenária na época em que Dante produziu sua obra.
É a “Palio del Drappo Verde” (Corrida do Pano Verde), afirma sem medo de errar o jornalista, editor e escritor florentino Indro Neri, apaixonado por corridas e por comida.
Ele é autor de um guia sobre a maratona de Nova York –com foco, por certo, na presença e participação de corredores italianos—e de um compêndio de receitas de substanciosos pratos tendo tripas como base, a chamada “peça de resistência”.
Esses volumes são encontráveis em livrarias virtuais pela internet afora; mais interessante para o corredor, porém, é um livreto editado pelo próprio autor, simples brochura, pouco mais do que um panfleto disponível apenas para poucos e só em italiano: “Dante Era Um Podista”, publicado originalmente em 1995 como suplemento da revista mensal italiuana “Podismo”.
Com bom humor, trata de provar que o poeta era um corredor ou, pelo menos, entusiasta das corridas a pé. Revisita a monumental “Divina Comédia” para encontrar referências outras ao pedestrianismo. Da garantida, a “Drapo Verde”, registra uma história completa, baseada em pesquisas em documentos catalogados em museus e arquivos históricos italianos.
Desde a Antiguidade as corridas a pé fazem parte de celebrações mundanas, pagãs e religiosas. Foi uma corrida de cerca de cem metros, por sinal, a única competição realizada na primeira Olimpíada na Antiguidade, no ano de 776 antes de Cristo, na cidade grega de Olímpia.
Que gire a roda do tempo!
Edifício multimilenar, a Arena de Verona está no coração do centro histórico da cidade

Quase dois mil anos depois, no que hoje é o norte da Itália, o feudalismo começa a sofrer fissuras. Barões e duques, senhores da guerra, perdem forças para a burguesia nascente; cidades-estados emergem, e o comércio passa a ser gerador de fortunas e poder político.
Na região do Veneto, a segunda metade do século 12 é marcada por conflitos, os poderes locais se aliando para enfrentar o imperador de Roma, cidades buscando se manter independentes. Depois de armistício assinado em 1176, o povo de Verona sonha em chegar ao novo século em paz, registra Alethea Weil em “The Story of Verona”, obra publicada em Londres em 1907.
Sonho vão, por certo. Passam as décadas, e as intrigas entre os poderosos se transformam em conflito armado a partir de meados de 1206: de um lado ficam o conde de San Bonifazio e a família Montecchi, que tinham sido aliados do poder romano, integrando a turma dos gibelinos; de outra, a orgulhosa Cidade de Verona, dominada pelo “partido” dos guelfos.
Comandados por Azzo VI, marquês de Ferrara, os independentistas vencem e consolidam a paz em 1207. Para celebrar o primeiro aniversário da vitória, o governante determinou que fosse realizada uma corrida a pé pelas ruas de Verona. O vencedor ganhava um pano verde de seda, prêmio de grande valia na época e origem do nome da corrida.
Ponte fortificada é herança da Verona medieval

Realizada no primeiro domingo da Quaresma, a prova passou a ser parte da vida da cidade, e sua realização virou obrigatória, registrada em lei de papel passado pelos poderes locais. Giraram os séculos, Verona sofreu várias ocupações, mudaram os mandantes e as leis, mas o Palio seguiu firme e forte, com pequenas modificações de regras e percurso.
Além dos regulamentos, leis e estatutos falando da corrida e determinando suas regras e as modificações delas ao longo dos séculos, registros mais mundanos servem para atestar a perenidade do Palio Del Drappo Verde.
Quem nisso ajuda os historiadores é um sargento, Jacometo de Patulia, que em 1710 visitava Verona ou lá morava.
Indícios apontam que seria um turista, pois fez questão de deixar a marca de sua presença, gravando com seu canivete uma inscrição nas paredes do palácio Carlotti, no início do Corso Cavour, no que hoje se chama de centro histórico de Verona.
Apesar de pouco legível, com algum esforço dá para entender as palavras encravadas abaixo da quarta janela do térreo do palácio: “Em 2 de março de 1710 –o dia do pálio—o sargento Jacometo de Patulia esteve neste lugar.
A competição só foi suspensa no final do século 18, em 1797, quando o  Império Veneziano –do qual Verona fazia parte—foi conquistado por Napoleão. Os prepostos do grande guerreiro francês acharam por bem acabar com as festas religiosas do território ocupado, e a coitada da corrida entrou de cambulhão, passando ao ostracismo e ao esquecimento.
Esquecida ficou por mais duzentos anos, até que, no início deste século, apaixonados por corridas redescobriram a obra de Dante. Andy Milroy, historiador britânico do mundo das ultramaratonas e entusiasta de história medieval, mergulhou na obra de pesquisadores italianos e motivou um grupo de corredores italianos a retomar o fio da meada.
Com base nas pesquisas históricas, a equipe de corridas Gruppo Sportivo Dilettantistico MOMBOCAR, já então transformada em organizadora de provas, tratou de reativar a Palio Del Drappo Verde em 2008, para o que seria o 800º aniversário da prova. Até aquela data, calculam os historiadores, a prova havia tido nada menos do que 590 edições efetivamente realizadas --a diferença se deve ao período de suspensão iniciado na tomada da região pelo Exército napoleônico.
Vai daí que, neste ano da graça de 2017, a Drappo Verde chega à sua sexcentésima edição –múltiplo perfeito de minha comemoração particular: eu chego aos sessenta anos, a corrida chega à sua edição número seiscentos. Participar do evento foi uma espécie de prêmio que me autoconcedi como comemoração da passagem da primeira metade de meu projeto de correr, ao longo deste ano, distância equivalente à de sessenta maratonas.
E assim me tornei, nos arrabaldes de Verona, o primeiro brasileiro –segundo me afirmaram os organizadores—, a participar da mais antiga corrida do mundo. Minha digníssima e amantíssima esposa, por sua vez, é a primeira brasileira ter tal subida honra. Detemos, pois, o recorde verde-amarelo na Palio Del Drappo Verde, eu na meia maratona, Eleonora na corrida de dez quilômetros.
Recordistas mundiais e interplanetários, em suas respectivas categorias, como representantes brasileiros na mais antiga corrida do mundo ainda em realização

Apesar de Indro Neri, em suas pesquisas, ter conseguido resgatar o que se supõe tenha sido o trajeto original da Drappo Verde, questões legais e o próprio desenvolvimento urbano ao longo dos séculos impediram até agora que a prova voltasse a um percurso mais semelhante ao desenho histórico.
Organizadores da prova e historiadores apaixonados por corrida sonham com o dia em que ele volte à área urbana de Verona, no centro histórico da cidade em que Shakespeare ambientou “Romeu e Julieta”, o dramalhão de amor mais romântico de que se tem notícia.
O amor está no ar até nas medalhas conquistadas pelo casal recordista
A cidade, aliás, respira a paixão dos jovens retratados pelo dramaturgo britânico. Para atrair a atenção e o dinheiro dos turistas, vale tudo: há a casa de Julieta, a tumba de Julieta, a tumba de Romeu, caminhos shakespearianos e milhões de lembrancinhas, livros, artefatos os mais diversos inspirados na paixão adolescente e proibida.
Não faltará quem jure quem é tudo verdade, pois o romance teria sido inspirado em figuras que realmente existiram, caminharam e se amaram nas ruas de Verona. Os Montecchios, por exemplo, seriam baseados na já citada linhagem Montecchi, traidores de Verona na batalha de 1207 –aquela mesma, cujo fim foi tão festejado pela cidade que passou a ser comemorada com a corrida do Pano Verde.
Corrida que, afirma o historiador britânico Wiliam Vernon, foi várias vezes presenciada por Dante durante seu exílio em Verona, onde viveu por muitos anos depois de expulso de sua Florença natal.

A cidade, por sua vez, também presta homenagem ao poeta. Há passeios turísticos pelos “Caminhos de Dante” e não faltam ruas e ruelas, bustos e estátuas do escritor que desceu aos infernos e subiu aos céus, protegido e inspirado por sua amantíssima Beatriz.
Hoje a prova é realizada nos surbúbios de Verona, em uma área rural produtora de vinhos e de cerejas estupendas. Passamos todos por grandes pomares em que viceja a deliciosa frutinha vermelha e por enormes parreirais. Tudo tem como base as instalações de uma cooperativa fabricante de vinhos, a Valpantena, que congrega mais de duas centenas de pequenos produtos locais.
É nos galpões da empresa que acontece, na véspera da prova, o equivalente ao que conhecemos por jantar de massas. Trata-se, na verdade, de uma celebração orgiástica da comida e da bebida.
A simpática turma de cozinheiras encarregadas da comilança para os corredores

A estrela das comilanças é um fabuloso risoto de cerejas, levemente adocicado. É precedido por entradas em profusão, pães, queijos e saladas, tudo regado a vinhos brancos e tintos especialmente rotulados em homenagem à edição 600 da Palio Del Drappo Verde.
Sai o risoto e entra o segundo prato, “os segundos pratos”, de fato: embutidos, conservas, queijos de várias procedências, que preparam o terreno para a sobremesa, colomba pascal com gotas de chocolate. Para finalizar, taças de espumante para todo mundo.
Com essa festança toda, eu já estava até dispensando a corrida, mas a manhã de domingo nasce ensolarada, e lá vamos nós de volta aos galpões da vinícola, agora preparados para receber os corredores. Num dos cantos do salão, acumulam-se os prêmios, as medalhas, troféus e caixas de presentes recheadas de bebidas e comidas locais.
Numa outra plataforma, uma grande gaiola serve de prisão para um gordo galo que pareceu ser da raça legorne, pelo pouco que me lembrava da criação que meu avô mantinha no quintal de sua casa em Porto Alegre.



A inusitada presença também tem razões históricas. Quando criada a corrida, lá em 1208, foi instituído o pano verde como prêmio ao vencedor. Com o peculiar humor italiano e com o passar do tempo, criou-se também presente para o último colocado, que recebia um galo como prêmio de consolação.
Melhor dito: prêmio de humilhação, como ressalta Neri em “Il Palio Podistico di Verona”. Isso porque o coitado do premiado tinha por obrigação desfilar pelas ruas da Verona medieval levando o galo por uma cordinha. Com era época de festas, o público entusiasmado aplaudia e vaiava o coitado do corredor; quem quisesse podia cortar a cordinha, obrigando o atleta a empreender nova corrida atrás do galináceo.
Havia também prêmio de consolação/humilhação na corrida de cavalos que acontecia em paralelo ao Drappo Verde. O cavaleiro perdedor ganhava um quarto de porco. A peça era amarrada ao pescoço da montaria, e o cavaleiro desfilava por Verona, sendo permitido ao público tirar nacos do pernil para consumo próprio.
Enquanto me preparava para a largada, meditava sobre o assunto: quem haveria de levar a galo dos derrotados nesta edição comemorativa, realizada na ensolarada manhã do dia quatro de junho?
Os pensamentos foram atrapalhados pela balbúrdia da largada. Melhor: das largadas, pois são múltiplas provas realizadas sob o manto verde. Há uma caminhada nórdica e corridas de trilha em duas distâncias, todas com largada minutos antes do evento principal, a corrida nas distâncias de 21 quilômetros e dez quilômetros.

De certa forma e guardadas as proporções, a multiplicidade de modalidades também lembra um pouco a evolução da Drappo Verde que, ao longo de sua história, ganhou variedades diversas depois das primeiras décadas, em que houve apenas a corrida a pé.
O Statuto Albertino, código de leis compilado em 1271 por Alberto della Scala, estabelecia que duas corridas deveria ser realizadas no primeiro domingo da Quaresma, a prova a pé e um carreira de cavalos. O tal prêmio de consolação/humilhação também é determinado por lei: registro feito em 1328 especifica e ratifica a entrega do galo ao último colocado e o pano verde para o campeão.
No final do século 14, novos regulamentos determinaram que mulheres também poderiam participar da prova –ironia extrema, pois cinco séculos depois as mulheres não podiam dizer presente em alguma competições olímpicas e ficaram de fora da maratona até 1984.
Legislação estabelecida no “Statuto” de Giangaleazzo Visconti, aprovado em 1393, criava a prova feminina. Havia um porém: a corrida era aberta apenas para mulheres “honestas” –supostamente as casadas. Se, no entanto, não houvesse mulheres honestas interessadas, a participação seria liberada para as prostitutas.
Para completar a bagunça geral, o último regulamento da Verona medieval de que se tem notícia, datando de pouco depois de 1450, muda a data das corridas, passando da Quaresma para a Quinta-feira Gorda (o dia seguinte à Quarta-feira de Cinzas”) e institui ainda uma corrida em lombo de burros, na qual o vencedor seria premiado com um pano branco.
O regulamento não determina o vestuário feminino; ao que tudo indica, até então os homens costumavam correr pelados, apesar do clima em geral ameno na época em que a Drappo Verde era disputada.



Na sua edição número 600, porém, o clima esteve longe de ameno. Quentura brava neste final da primavera europeia, com o sol tostando o lombo dos corredores. Depois de dois quilômetros eu já estava pedindo água, mas o refresco só veio bem mais tarde; os postos de hidratação são colocados a cada cinco quilômetros.
Em parte do percurso –o trajeto de ida, digamos assim--, o piso é de asfalto e gozamos da sombra de altos muros de pedra que protegem pequenas propriedades rurais onde são produzidas uvas e cerejas.
O caminho de volta, porém, atravessa belíssimo parreiral, e o que tem de belo tem de quente, pois não há proteção contra o solaço –a sensação é de que a temperatura estava em torno dos trinta graus. Sem proteção, o solo de terra batida, pedregulhos e areia fina se torna rima ao areão ardente visto por Dante no sétimo círculo do Inferno.



Os que correm dez quilômetros fazem uma vez o percurso. Nós, os poucos meio maratonistas na brincadeira, engatamos uma segunda rodada, uma quilômetros mais longa que a primeira, mas, como ela, com apenas dois postos de água.
Por isso, quando a sede apertou, decidi não sofrer. Tal como muitos antes de mim, ataquei as cerejeiras que vicejavam à beira da estrada, e o suculento fruto me ajudou a completar feliz a prova mais antiga do mundo.
Com ela, totalizei no dia quatro de junho último 1.128,34 quilômetros percorridos desde o dia primeiro de janeiro neste ano em que, para celebrar meu sexagésimo aniversário, pretendo percorrer distância equivalente à de sessenta maratonas, 2.532 quilômetros.

Ao longo do caminho, venho discutindo também questões de saúde, qualidade de vida e inserção social dos mais velhos, o povo que atinge a chamada Terceira Idade.
Não tem sido uma jornada fácil, especialmente por causa de lesões e do fato de que, nos mais velhos, a recuperação costuma ser mais lenta. Em compensação, venho aprendendo muito sobre a vida, as corridas e o  envelhecimento, além granjear apoios e solidariedade especiais, como da clínica Força Dinâmica, que organiza meu treinamento e preparação física, e do Instituto Vita, que colabora nos trabalhos de conserto e recuperação de músculos, ossos e tendões, a chamada carne fraca.
Tudo isso me dá força e aumenta minha determinação, mas a velocidade continua não sendo grande coisa: ganha um doce quem adivinhar quem ganhou o galo na sexcentésima edição da Palio Del Drappo Verde, a mais antiga corrida do mundo ainda em disputa nos tempos modernos. O que só reforça minha crença esperançosa no popular ditado que, ao arrepio da lógica, afirma: “Os últimos serão os primeiros”.
VAMO QUE VAMO!!!



Percurso caminhado no dia 18 de julho de 2017
3,22 quilômetros percorridos em 37min24
Percurso acumulado no projeto 60M60A
1.533,98 quilômetros percorridos em 269h24min36

PS.: Uma versão condensada deste texto foi publicada na edição de julho da revista “O2


12.7.17

Resistência democrática no inverno de nossa desesperança


Parece que só escrevo nestas páginas para chorar as pitangas ou festejar alguma corrida maravilhosa, deixando de lado o dia a dia de pequenas tristezas e menores alegrias, de algumas conquistas simples e fracassos desgraciosos.
Azar, é o que temos, e hoje volto aqui a lamentar meu triste estado de espírito, que só não é pior do que meu estado físico.
Estou há quatro dias sem correr e provavelmente vou ficar na seca ainda outros quatro e talvez mais quatro também.
Na tarde do último sábado, em que eu havia feito um treino matinal de catorze quilômetros, bem gostoso, uma dor agudo atingiu meu joelho, uma pontada, agulhada infernal.
Seguiu noite adentro, mas me deixou dormir. O sono, porém, não serviu para aplacar a pontada: na manhã de domingo o joelho ainda gritava a cada passo, descer e subir escadas era um suplício.
Acabei indo ao pronto socorro. As radiografias saíram limpas e, tal como juízes que condenam sem provas, o médico disse que, na falta de causas, provavelmente a razão da dor era uma fratura por estresse.
Seria a quinta de minha curta carreira de corredor amador, dedicado, mas não maluco (pelo menos, eu não me acho maluco; há divergências). E a segunda em menos de um ano. É demais!!!
Fiquei em suspenso aguardando o resultado de exames outros, as malditas e barulhentas ressonâncias magnéticas, que só consegui fazer ontem, depois de idas e vindas para obter autorização do convênio médico.
Enquanto isso, vivi em suspenso. Se confirmada hipótese, seria praticamente o fim de meu projeto, de meu sonho, de minha determinação de percorrer neste ano distância equivalente à de sessenta maratonas.
Já rodei mais de trinta e cinco maratonas, falta menos do que quando comecei, mas ainda falta muito. E caminhar quebradinhos por dia, o que aconteceria em caso de fratura por estresse, talvez não fosse o suficiente para somar os mais de mil quilômetros ainda faltantes para fechar minha conta.
Meu ânimo se esvaía pelo ralo na tarde de ontem esperando a divulgação dos resultados.
Foi quando fiquei sabendo da ação intrépida de seis senadoras da República, mulheres de fé e coragem: sem outra forma de impedir o avanço de votação de legislação atroz contra aos trabalhadores, ocuparam a mesa do Senado.
O sexteto de ouro é formado por três parlamentares petistas --Fátima Bezerra (PT-RN), Regina Sousa (PT-PI) e a presidenta do partido,  Gleisi Hoffmann (PT-PR)—mais  Lídice da Mata (PSB-BA) Vanessa Graziotin (PCdoB-AM) e Kátia Abreu (PMDB-TO).

No mapa, que capturei nas redes sociais, falta a senador do Piauí, que cuja foto incluo aqui ao lado.
Todas foram guerreiras do povo, verdadeiras amazonas da resistência, cavaleiras da esperança neste inverno de nossa desesperança, mas quero destacar a bravura e firmeza de Kátia Abreu,  voz quase solitária no pântano de vileza em que se transformou o que um dia se disse o maior partido do acidente.
Sobre Abreu, o jornalista Mario Marona afirmou: “É adversária ferrenha do golpe, leal defensora de Dilma e hoje combativa aliada das forças progressistas”.
Ainda que  a ação valorosa de nossas mulheres maravilhas tenha fracassado –a legislação escravagista foi votada e aprovada pela maioria golpista que domina o Senado--, seu exemplo de resistência fica para a história e se torna cada vez mais necessário nos dias difíceis que vivemos.
Foi com elas na cabeça, e não com a esperada derrota na votação, que vi o resultado dos exames.  O laudo apontou um monte de problemas no meu joelho, coisas terríveis que nem quero repetir aqui, mas concluiu com um parágrafo que me encheu de alegria:
“Não há sinais de fraturas por estresse ou edema ósseo no estudo atual.”
Claro que, em contrapartida, “Nota-se progressão da condropatia patelofemoral com aparecimento de fissuras condrais profundas e focos de alteração de sinal subcondral”.
É o que provoca minhas dores, as tais “fissuras profundas”. Azar é delas.
Inspirado pelas amazonas da resistência, tratei de resistir à dor. Correr não poderia, seria uma irresponsabilidade. Mas caminhei quatro quilômetros hoje de manhã e até contei a história em um vídeo, tão entusiasmado que estava (CLIQUE AQUI).
A tarde deste dia doze de julho, porém, reservava mais um ataque aos interesses e às vontades do povo brasileiro, à Justiça e à verdade: o ex-presidente Lula foi condenado sem provas, por convicções, porque trabalhou pelo povo brasileiro.
"Isso é um escândalo", disse o líder do PT no Senado, Lindbergh Farias (RJ). O senador convocou o povo às ruas contra a condenação sem provas e afirmou:
"Não vivemos em uma situação de normalidade democrática, isso não é democracia. Isso é um estado de exceção. Nossa reação tem que ser muito forte, nós temos que fazer manifestações nas cidades brasileiras. 
Temos que organizar atos no Brasil todo, não podemos ficar em silêncio diante desse fato", disse. "É hora de ir para cima, não é hora de ficar intimidado", acrescentou.

A Frente Brasil Popular convocou ato para a avenida Paulista, em São Paulo: “A perseguição ao ex-presidente Lula esta tomando um desfecho que já esperávamos. Hoje, mesmo sem elementos de provas, o juiz Moro condenou o ex-presidente. Uma condenação que reforça a tese de perseguição política com a finalidade de tirar o ex-presidente Lula das eleições, uma afronta ao estado democrático de direito. Convocamos todos os brasileiros que acreditam na democracia para uma manifestação pacífica em desagravo as arbitrariedades do juiz Sergio Moro. A manifestação inicia agora no Masp, na Avenida Paulista. EM DEFESA DE LULA, EM DEFESA DA DEMOCRACIA!”

VAMO QUE VAMO!!!!

5.7.17

35 maratonas e uma deliciosa corrida ao pôr do sol

Pouco antes do meio-dia de hoje, na avenida Sumaré, em frente à praça que homenageia a psicóloga Ana Maria Poppovic, passei a marca das trinta e cinco maratonas, um momento significativo de meu projeto de sexagenário, em que me proponho correr neste ano distância equivalente à de sessenta maratonas.
Ainda estou longe de completar os tais dois mil, quinhentos e trinta e dois quilômetros de corridas e caminhadas, que é o objetivo de meu projeto. Mas falta menos do que quando comecei. A soma atingida hoje, de mil, quatrocentos e setenta e nove quilômetros e duzentos e setenta metros, me dá alento para prosseguir.
Não tem sido fácil. Ao contrário, a cada dia parece que fica mais difícil sair da cama –especialmente com a friaca que tem acontecido ultimamente em São Paulo.
Não é apenas a preguiça que ganha forças e se torna um adversário cada dia maior; o próprio exercício, caminhar e correr pelas ruas da cidade e por onde me for possível, carrega energias do corpo, mina músculos, atinge tendões e solapa a ossatura.
A intensidade de tudo é multiplicada pelas cobranças da idade, que torna mais demorada a recuperação. Apesar disso, há que voltar ao asfalta para manter o olho na meta proposta. 
Com solzinho meio meio, treino de hoje foi uma delícia
Há contrapartidas. Se o exercício é deletério, também é animador, contagiante, entusiasmante, recompensador. O corpo que a corrida solapa também é fortalecido por ela –são as contradições da vida, a dicotomia do viver: tese, antítese, síntese, tudo se encontra e embaralha no asfalto, no sangue, nas células, nos músculos, no suor.
Filosofias à parte, esses quase mil e quinhentos quilômetros já percorridos neste ano, com cerca de cinco sessões semanais de treino, oferecem estatísticas curiosas. Para mim, assustadoras até.
A mais impactante: somando todos os metros percorridos nos 131 dias de atividade corredística deste ano, houve um ganho de elevação de 15.678 metros.
Dito assim, parece não significar nada. O que é “ganho de elevação”.
Explico: trata-se da diferença, calculada em metros, entre as distâncias percorridas “para baixo” e as distâncias percorridas “para cima”. Não necessariamente ladeiras, montes ou montanhas, apenas descidas e subidas, leves, fortes, poderosas ou mirrecas.
Somando todos os percursos que fiz em subida neste ano e tirando do total a soma de todos os trajetos feitos em descida, ainda sobre uma montanha de metros de diferença.
Altura do Everest é menos da metade de meu
"ganho de elevação" neste anos
É uma montanha mesmo: o tal ganho de elevação, se transformado em acidente geográfico, interrupção da paisagem, seria um morrinho maior do que o Kilimanjaro empilhado sobre o Everest. É pouco ou quer mais?
Foram raras, neste etapa, as corridas “de verdade” em que participei. Preferi rodar sozinho, pensar na vida, conversar ao longo do caminho com convidados especiais.
Mas escolhi algumas provas, sim, para pontuar meu caminho, testar as forças ou simplesmente aproveitar a jornada.
No último fim de semana de maio e nos dois primeiro de junho, realizei um miniprojeto que chamei de Trio de Meias Maratona, participando de três meias maratonas em três fins de semana seguidos.
Meu objetivo, além de desfrutar de corridas muito especiais, em cenários esplendorosos e de alto conteúdo histórico, era avaliar se conseguia manter o mesmo nível de desempenho –por pior que fosse— numa sequência de provas exigentes.
Ainda tenho dúvidas quanto à resposta; em contrapartida, tenho absoluta certeza de que foi uma delícia correr as provas escolhidas.

Pôr do sol em Veneza, foto tirada do barca em que a gente volta para Cavallino Treporti, 

A primeira delas foi em um subúrbio de Veneza, a cidade de Cavallino Treporti, que fica na periferia da lagoa de Veneza, uma península comprida e magrinha entre a lagoa e o continente.
Trata-se de localidade muito antiga –há sinais de ocupação romana em alguns pontos do município. Nos séculos 18 e 19, foi usada como área de lazer pelos nobres venezianos, que também souberam aproveitar as terras férteis da região para produzir de um tudo por lá.
Hoje, a cidade vive principalmente do turismo, que é reforçado por eventos como o que eu participei, a Moonlight Half Marathon –-o nome da prova é assim mesmo, em inglês, e significa meia maratona ao luar.
Há algumas semanas, escrevi para o site da “O2” um relato da prova. O material publicado é base para o texto que reproduzo a seguir.

Pôr do sol, lagoa e balada
em meia maratona
nos arredores de Veneza

O sol das oito da noite brilhava firme e forte sobre o lombo dos quase cinco mil corredores espalhados na alameda do dique de Punta Sabbioni, no exato encontro das águas da lagoa de Veneza com o mar Adriático.
No final da primavera italiana, os dias se alongam cada vez mais; a temperatura é alta para corridas, mas, quando o sol finalmente dá lugar ao lusco-fusco que anuncia a noite, uma brisa fresca facilita a vida de quem se movimenta com energia.
Está tudo pronto para a largada da Moonlight Half Marathon, cujo nome é uma contradição em termos: promete a luz da lua, mas oferece, na partida, um sol ainda poderoso.

Confira no mapa a localização de Veneza, que é uma ilha, e de Cavallino, uma península entre a lagoa e o mar 

Concentrados, os corredores cumprem a liturgia do momento, cada um com suas manias. Há grupos conversando em altos brados, outros em fofoca miúda, há gargalhadas e sorrisos, há gente em silêncio, de olhos fechados, enquanto outros executam os últimos alongamentos, rodam joelhos, movimentam calcanhares.

Corredores relaxam antes da largada; à dir., com o barquinho, é a lagoa de Veneza; a praia ao fundo, à esq., é banhada pelo Adriático

Parecem não dar atenção ao cenário que pintam de tantas cores. Ao nosso lado esquerdo, o azul profundo da lagoa de Veneza; para trás, o mar, a praia ampla, de areias finas; à direita, campos e mais campos, áreas silvestres, ou de bangalôs de recreio.
De costas para o Adriático, ouvimos a corneta da largada, e lá vamos nós penetrar o litoral e a vida selvagem ma non tropo de Cavallino Treporti, península ao norte de Veneza que oferece ao turista o melhor de dois mundos: de um lado, esportes náuticos na bela e aparentemente limpa lado; do outro, quinze quilômetros de praia.
Atrativos que fazem do litoral cavallinesco um dos mais buscados da Itália na época das férias –segundo o site oficial da cidade, recebe seis milhões de turistas por ano, o que é uma enormidade, considerando que a população local nem chega a quinze mil pessoas.


Plana, planíssima, a região também é ótima para o ciclismo e, claro, para corredores que tentam eternamente bater seus recordes particulares.
O início, porém, não é muito alvissareiro. O sol ainda é forte, saímos com os termômetros passando dos 23 graus, e corredores mais lerdos logo sentem o quentume.
É apenas o começo, estamos todos descansados, empolgados com o terreno e os cenários, o azul da lagoa acalma, ainda que o sol teime em castigar nossos olhos e se recuse a cair horizonte abaixo.

Ao fundo, ruínas de antiga propriedade rural

Vai, porém, perdendo sua cor laranja tão vigorosa, flamejando, enquanto desce aos pontos para ir beijar as águas da lagoa. E se oferece em por do sol quando chegamos à altura do quilômetro quatro, logo depois de uma curva.
Para o corredor que bebe da paisagem, é um momento quase de oração, concentração, deslumbramento. O céu ganha riscos multicoloridos, e o sol se transmuda em laranja, amarelo, vermelho, roxo...


Dá para seguir por muitos quilômetros embalado apenas por essa visão. Para melhorar ainda mais, uma leve brisa vem refrescar o corpo.
Seguimos pelo litoral da lagoa, onde de quando em quando há pequenas marinas, áreas de diversão, um boteco ou outro, recantos de pescadores.
O silêncio é quase absoluto, a tranquilidade é imensa, e o corredor só não entra em transe zen-budista porque consulta o relógio a cada instante ou confere a distância que o separa do competidor mais próximo...
Manter o ritmo, acelerar, forçar um pouco mais, essas são as exigências da competição, mesmo nesse território tão convidativo ao repouso.


E assim fazemos todos, agora beijados pela luz da lua –fraquinha, é verdade, num céu bem estrelado. Ainda bem que há iluminação artificial para nos orientar pelo percurso.
Nessa balada, os quilômetros passam quase sem nos darmos conta. Numa breve incursão urbana, cruzamos a periferia do centro de Cavallino, e uma banda nos espera para animar para a metade derradeira da prova. A iluminação da igreja, obra multicentenária concluída em 1750, gera sombras fantasmagóricas no asfalto.
Longo chegamos ao ponto apresentado como o mais difícil da corrida, travessia da ponte sobre o rio Sile... Na verdade, nem sequer queima as panturrilhas...
Finalmente, estamos em Lido di Jesolo, que é onde se concentra a vida noturna da região, bares recheados, restaurantes e baladas.
Para entrar no clima de festa, os últimos quilômetros da prova são por uma alameda que combina lojas sofisticadas como as que paulistanos encontram na rua Oscar Freire com a multidão de bares, restaurantes e sorveterias tal qual as do Bixiga.
Tudo ladeado por grandes árvores, de copas generosas que se encontram, transformando a avenida em um túnel vegetal, uma galeria de verde que leva os atletas até o ponto final da Moonlight Half Marathon, a Meia Maratona do Luar.


Depois, é festa na praia e balada na praça Mazzini –os anunciados sete mil participantes do evento (meia maratona e 10 km) receberam cupons de desconto para o consumo em algumas das baladas locais, e bares na praça oferecem a primeira bebida de graça para os corredores.
Quem prefere comer logo e descansar também é atendido: logo depois de receber a medalha, o atleta chega a uma enorme barraca onde há comida à vontade: frutas, biscoitos, sucos, energéticos... Até água tem.   
Apesar do clima baladeiro, a corrida é de alta competitividade, com a onipresente participação de atletas africanos. O vencedor foi o queniano Julius Kipngetich, que completou em 1h04min08. Também do Quênia, a vencedora da prova feminina foi Pauline Eapan, com 1h15min22.
Eu terminei beeem depois deles.
Mas não tem problema. Quando comecei a participar de maratonas, tinha um critério particular para avaliar se eu havia me saído bem ou mal em tal ou qual prova: se eu tivesse feito menos do que o dobro do tempo do vencedor, estava ótimo; se não, podia melhorar...
A gente sempre pode melhorar. É preciso saber reconhecer, porém, o que “melhorar” significa para cada um de nós. O tempo é apenas uma medida, ainda que muito significativa e muito usada por nós; afinal, mesmo os lerdos como eu estão participando de um esporte competitivo, e o objetivo é fazer o melhor possível.
Hoje em dia, o meu “melhor possível” é superior ao dobro do tempo do vencedor da prova. Mas também não faço nenhum esforço grandioso –ou menos que grandioso—para mudar isso; ao contrário, para nas corridas para bater fotos, aproveito uma música, presto atenção na paisagem.
E acelero, quando tenho vontade ou vejo que é possível ou quero me desafiar ou quero acelerar.
VAMO QUE VAMO!!!


PERCURSO de cinco de julho de 2017
13 km percorridos em 2h10min11

PERCURSO ACUMULADO no projeto 60M60A
1.479,27 quilômetros percorridos em 259h04min51

PS.: Se você quiser saber mais sobre a vida e o trabalho de Ana Poppovic, clique neste link AQUI.


23.6.17

Metade do caminho já se foi, agora é só morro abaixo!!!

“Agora toca uma das suas músicas”, pediu a garota, com um sorriso aberto iluminando de juventude seu belo rostinho.
Agarrado ao violão, que trazia abraçado ao torso nu, o rapaz seguiu dedilhando as cordas, de olhos fechados, o rosto oferecido ao sol primaveril, ouvindo apenas a si mesmo.
Minutos antes, ele pulara o cercado de ferro que protegia o túmulo, deitara ao lado da tumba, sentara em uma das bordas, erguera-se próximo às inscrições, saltara sobre as flores, fizera poses para fotos e agora, enfim, maltratava o violão enquanto cantava em voz baixa, que chegava até nós, tão próximos dele, apenas como um murmúrio.
Era alguma canção de Jim Morrison, por certo.
Estávamos no cemitério de Pére Lachaise, local de descanso eterno de heróis do povo francês, artistas, escritores, políticos, cantores e milhares de homens e mulheres comuns.
Naquele Dia dos Namorados, caminhava ao lado de minha namorada pelas alamedas da Casa dos Mortos para homenagear a vida: haveríamos de completar, nas ruas de Paris, metade do trajeto que me impus percorrer ao longo deste 2017 em que cheguei aos sessenta anos e entrei oficialmente para a comunidade dos velhos deste mundo.
No total, serão 2.532 quilômetros, cada metrinho –ou seria metrozinho?—devidamente computado, caminhado, corrido, suado, sofrido.
Ao longo do trajeto, vou assuntando sobre os assuntos dos veteranos, saúde, qualidade de vida, inserção social –o que somos, quem somos, o que podemos e o que queremos, nós todos, homens e mulheres chegados à Terceira Idade, muitos de nós aposentados, desempregados e, mesmo assim, arrimo de família.
É quase um despertar para uma nova idade adulta. Ao longo da vida de trabalho, muitos de nós sonhamos com esse momento, em que enfim seremos independentes, em que enfim teremos tempo para cuidarmos de nós mesmos, para ler, estudar, viajar, aprender mais um idioma, encontrar novas parecerias ou reaquecer os amores de sempre.
Nem sempre isso acontece. Na vida, como na corrida –ou seria o contrário?--, os tropeços são muitos, muitos deles muito doloridos. Há sempre, como percebeu o poeta, uma pedra no meio do caminho.
O corredor passa por ela, pula por sobre ela ou esbarra nela, mas, como os viventes todos, segue seu trajeto.
É o que venho fazendo desde o dia primeiro de janeiro deste ano. Os tais dois mil, quinhentos e tantos quilômetros prometidos para o ano se dividem em meses, semanas, dias.
Quase todos os dias saio para enfrentar um trajeto, cumprir uma distância, encontrar alguém que fale sobre a velhice ou a corrida, caminhando juntos para descobrirmos mais um pouco sobre nós mesmos.
Em média, consigo completar pouco mais de cinquenta quilômetros por semana, faço no mês em torno de duzentos e vinte quilômetros, distância que pode ser impossível para alguns ou mamão-com-açúcar para outros.
Para mim, é algo inédito. Quando, pouco depois dos quarenta anos, comecei a correr e me apaixonei pelas longas distâncias, maratonas e ultramaratonas, costumava fazer em torno de dois mil e quatrocentos quilômetros por ano.
Assim foi por mais de uma década, até que a vida começou a cobrar a fatura em dores musculares, hérnias daqui e dali, fraturas, estresse, inflamações, torsões, preguiça e desânimo. Nos últimos dez anos, mal tenho passado dos mil quilômetros a cada doze meses; nos anos bons, chego a mil e oitocentos quilômetros e festejo muito.
Vai daí que as tais sessenta maratonas aos sessenta anos são um desafio e tanto para este corpo cansado e um tanto maltratado, para este espírito teimoso, esperançoso, mas também muitas vezes triste, cansado, submisso à preguiça, à falta de vontade, ao desencontro.
Apesar de tudo, sigo e persigo. A soma dos quilômetros é prova disso. E chegar à metade do percurso já é uma conquista, uma medalha de honra ao mérito –ok, meia medalha de honra ao mérito...
Festejei a meia-meta com muita correria. De uma só vez, participei de três meias maratonas em três semanas seguidas –um estresse considerável para este corpo gordo e cansado. Foi muito legal, e cada prova há de merecer um relato especial, particular e ilustrado.
Mas a metade do percurso, de verdade, só fui atingir depois delas, dessas três corridas muito especiais. Foi em Paris, no Dia dos Namorados.


Ainda falta muito para o final, mas bem menos do que faltava quando comecei. Em contrapartida, o corpo já mostra sentir o esforço até agora desempenhado.
Pode ter sido essa a razão de minha desatenção em um treino, no início de maio, quando tropecei numa falha de calçada e fui ao chão em queda violenta e espetacular, que quebrou vários ossos de dois dedos da minha mão direita e ainda rachou um dos ossos do antebraço.
Pode ser também o estresse, o treino que o corpo considera excessivo, causa de alguns sinais deletérios na minha pressão e no comportamento do coração.
Por causa disso, por precaução, para manter a saúde, respeitar os avisos do corpo e os limites que a idade impõe, vou procurar dar uma reduzida na intensidade com que me dedico aos treinos.
Sonhava em fazer uma maratona no segundo semestre; abortei a ideia. Mas mantenho o compromisso de seguir na média de volume semanal necessária para completar 2.532 quilômetros até o final do ano.
Serei talvez ainda mais lento. Mas são compromissos, negociações que precisamos fazer com o corpo para que ele continue feliz, a gente siga vivo e, na medida do possível, feliz e satisfeito.
VAMO QUE VAMO!!!

Treino do Dia dos Namorados de 2017


9,53 quilômetros percorridos pelas ruas de Paris em 2h30min04

Distância acumulada no projeto  60 MARATONAS AOS 60 ANOS
1.368,69 quilômetros percorridos em 240h16min11